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ARA-290
Cibinetida

ARA-290

Cibinetida (péptido de superfície da hélice B da eritropoietina, pHBSP)

1257.32 g/mol Massa molecular
C₅₁H₈₄N₁₆O₂₁ Fórmula molecular
Peptídeo de investigação: não aprovado para uso humano Estatuto
Pyr-Glu-Gln-Leu-Glu-Arg-Ala-Leu-Asn-Ser-Ser (11 aminoácidos, piroglutamato N-terminal)
ARA-290 Photo: Zakir Rushanly

O que é o ARA-290 (cibinetida)?

O ARA-290, cujo nome internacional não proprietário é cibinetida, é um peptídeo sintético linear composto por 11 aminoácidos. Não se trata de um fragmento recortado ao acaso de uma proteína: a sua sequência foi desenhada racionalmente a partir da estrutura tridimensional da eritropoietina (EPO), mais concretamente da face aquosa externa da hélice B da molécula, a região considerada responsável pela sinalização de proteção tecidual e não pela produção de glóbulos vermelhos. Por esse motivo, a literatura refere-se frequentemente ao composto como péptido de superfície da hélice B (HBSP ou pHBSP, na forma com piroglutamato na extremidade N-terminal).

A sequência descrita nas bases de dados químicas é Pyr-Glu-Gln-Leu-Glu-Arg-Ala-Leu-Asn-Ser-Ser, correspondente à fórmula molecular C₅₁H₈₄N₁₆O₂₁ e a uma massa molecular média de aproximadamente 1257 g/mol, com o número CAS 1208243-50-8. É, portanto, uma molécula pequena quando comparada com a EPO recombinante, que é uma glicoproteína com cerca de 30 kDa, e esta diferença de tamanho explica parte do seu comportamento farmacológico.

A lógica de desenvolvimento do ARA-290 nasceu de uma observação acumulada ao longo de duas décadas de investigação sobre a EPO: além de estimular a medula óssea, a eritropoietina parece participar numa resposta endógena de limitação de danos nos tecidos lesados. O problema clínico é que usar EPO para essa finalidade implica estimular simultaneamente a eritropoiese, com consequências hematológicas e vasculares indesejadas. A cibinetida foi concebida precisamente para dissociar as duas funções.

DesignaçõesARA-290, cibinetida, pHBSP, péptido de superfície da hélice B
ClassePeptídeo agonista do receptor de reparação inata (EPOR/CD131)
Comprimento11 aminoácidos
Massa molecularcerca de 1257 g/mol
Fase de desenvolvimentoFase 2, sem aprovação de comercialização

Importa deixar claro desde o início: apesar de existir um conjunto de ensaios clínicos publicados, o ARA-290 continua a ser um composto experimental. Nenhuma autoridade reguladora autorizou a sua utilização terapêutica, e tudo o que se segue descreve investigação, não prática clínica estabelecida.

Como funciona o ARA-290 no receptor de reparação inata?

O mecanismo proposto para o ARA-290 centra-se num receptor descrito na literatura como receptor de reparação inata (innate repair receptor, IRR). Segundo esta descrição, o IRR não é uma proteína isolada mas um heterómero formado pela subunidade do receptor da eritropoietina (EPOR) em associação com o receptor beta comum (CD131), uma subunidade partilhada com receptores de citocinas como a interleucina-3, a interleucina-5 e o GM-CSF.

A revisão de Brines e Cerami publicada em Molecular Medicine em 2012 sistematizou esta hipótese: o receptor funcional que atenua a lesão tecidual seria distinto do receptor hematopoiético, e a sua ativação desencadearia vias anti-inflamatórias e antiapoptóticas em vez de proliferação eritroide. De acordo com este modelo, situações de hipóxia, lesão celular ou stress metabólico, com libertação de TNF-alfa e outras citocinas pró-inflamatórias, levam à síntese local de EPO nos tecidos vizinhos, que por sua vez sinaliza através do IRR para limitar o dano e favorecer a reparação.

O ARA-290 foi desenhado para se ligar seletivamente a esse heterómero. As vias intracelulares descritas a jusante incluem sinalização do tipo JAK2/STAT3 e PI3K/Akt, com redução da apoptose e modulação da ativação de macrófagos e de células da micróglia. Um ponto conceptualmente relevante é que a expressão do IRR é descrita como induzida pela própria lesão: isto implicaria uma ação preferencial em tecidos comprometidos, com pouco efeito em tecidos intactos. Esta seletividade dependente do contexto é atraente do ponto de vista teórico, mas permanece um modelo em debate na literatura, e nem todos os grupos reproduziram a existência funcional do heterómero nas mesmas condições experimentais.

Nos trabalhos sobre dor neuropática, a revisão de Dahan e colaboradores em Pain Reports (2016) propõe que o alvo do ARA-290 seja a componente neuroinflamatória da doença das pequenas fibras nervosas, com dois efeitos potenciais associados: atenuação da ativação glial e da sinalização inflamatória periférica, e condições mais favoráveis à regeneração das fibras amielínicas. É uma hipótese mecanística coerente com os desfechos escolhidos nos ensaios clínicos, mas que não equivale a demonstração de eficácia clínica.

Em que difere o ARA-290 da eritropoietina?

A diferença decisiva é farmacodinâmica. A eritropoietina recombinante liga-se e ativa o homodímero EPOR, o receptor clássico expresso nos precursores eritroides, estimulando a produção de glóbulos vermelhos. Esse efeito é terapêutico na anemia associada à doença renal crónica ou à quimioterapia, mas é indesejado quando o objetivo é apenas proteger tecidos: a estimulação da eritropoiese está associada a aumento do hematócrito, risco de eventos tromboembólicos e agravamento da hipertensão, razões pelas quais a EPO nunca se consolidou como agente citoprotetor.

O ARA-290 corresponde a uma região da EPO que, segundo o modelo descrito acima, não participa na ligação ao homodímero EPOR. Em consequência, descreve-se o peptídeo como não eritropoiético: nos estudos publicados em seres humanos não foi documentado aumento relevante da hemoglobina após administração repetida, e o composto é apresentado na literatura como desprovido do risco hematológico atribuído à EPO. Esta ausência de efeito eritropoiético é, aliás, a característica que define o interesse do composto.

Uma segunda diferença importante é a farmacocinética. Sendo um peptídeo pequeno e não glicosilado, o ARA-290 tem uma semivida plasmática curta, descrita na literatura como da ordem de minutos, muito inferior à da EPO recombinante. Os autores que trabalharam com o composto argumentam que os efeitos observados duram bastante mais do que a presença da molécula no plasma, o que sugere que o efeito depende da ativação de um programa celular e não de exposição contínua. Esta dissociação entre exposição e efeito é relativamente comum em peptídeos sinalizadores, mas complica a interpretação dos estudos de dose e a comparação entre trabalhos.

Finalmente, há uma diferença de estatuto que não deve ser esquecida: a EPO recombinante é um medicamento aprovado, com décadas de farmacovigilância, enquanto o ARA-290 é um candidato que não concluiu o desenvolvimento clínico. A proximidade estrutural com uma proteína humana bem caracterizada não transfere para o peptídeo o perfil de segurança conhecido da proteína de origem.

Que evidência existe na neuropatia de pequenas fibras da sarcoidose?

A indicação em que o ARA-290 foi mais desenvolvido é a neuropatia de pequenas fibras associada à sarcoidose, uma complicação frequente e de difícil abordagem desta doença inflamatória granulomatosa, que se manifesta por dor neuropática, disestesias e disfunção autonómica, com perda demonstrável de fibras nervosas amielínicas.

O primeiro estudo clínico relevante foi publicado por Dahan e colaboradores no Journal of Translational Medicine em 2013. Tratou-se de um ensaio cego e controlado por placebo em doentes com perda documentada de pequenas fibras nervosas, com administração subcutânea diária durante 28 dias. Segundo os autores, o grupo tratado apresentou melhoria significativa dos sintomas neuropáticos reportados pelos doentes, aumento significativo da densidade das pequenas fibras nervosas da córnea avaliada por microscopia confocal, alterações da sensibilidade cutânea à temperatura e aumento da capacidade de exercício medida pelo teste de marcha de 6 minutos. Com uma amostra reduzida e quatro semanas de exposição, estes resultados devem ser lidos como geradores de hipótese.

Seguiu-se um estudo de fase 2b, registado em ClinicalTrials.gov sob o identificador NCT02039687, cujo desenho previa até 64 participantes distribuídos por quatro braços (três doses do peptídeo e placebo), também com 28 dias de administração diária. Os resultados relativos à córnea foram publicados por Culver e colaboradores em Investigative Ophthalmology and Visual Science em 2017: o ensaio atingiu o desfecho primário pré-especificado, com aumento da área das fibras nervosas da córnea face ao placebo. Os autores descrevem ainda que a melhoria morfológica da córnea se correlacionou com a expressão de fibras nervosas intraepidérmicas positivas para GAP-43, um marcador de regeneração axonal, e com a melhoria da intensidade da dor ao fim de 28 dias.

Esta combinação de um desfecho de imagem objetivo com um marcador histológico de regeneração é o argumento mais forte do dossiê científico do ARA-290, e é o que distingue este peptídeo da maioria dos compostos discutidos em fóruns de utilizadores. Ainda assim, as limitações são substanciais: amostras pequenas, duração curta, desfechos em grande parte substitutos (a densidade de fibras da córnea não é um desfecho clínico final), ausência de replicação independente por grupos sem ligação ao promotor e inexistência de ensaios de fase 3 publicados. Em termos de medicina baseada na evidência, estamos no estádio de prova de conceito clínica, não de eficácia estabelecida.

Que outras indicações foram estudadas em humanos?

A segunda linha de investigação clínica incidiu sobre a neuropatia e o controlo metabólico na diabetes tipo 2. Brines e colaboradores publicaram em Molecular Medicine (volume 20, 2014) um ensaio em que o peptídeo ou placebo foram autoadministrados por via subcutânea diariamente durante 28 dias, com seguimento por um mês adicional, totalizando um período de observação de 56 dias. Os autores relatam melhoria da hemoglobina glicada e do perfil lipídico ao longo do período de observação e melhoria significativa dos sintomas neuropáticos avaliados pelo questionário PainDetect no grupo tratado.

Convém ser preciso quanto ao alcance destes dados. Trata-se de um único ensaio de pequenas dimensões, com desfechos múltiplos e uma duração claramente insuficiente para avaliar o curso de uma neuropatia diabética, que evolui ao longo de anos. A afirmação, frequente em páginas comerciais, de que o ARA-290 estaria validado para a neuropatia diabética não é sustentada: existe um sinal exploratório num estudo de fase 2, nada mais.

Uma terceira área investigada foi a oftalmologia. Lois, Gardner, McFarland e Brines publicaram em Journal of Clinical Medicine (2020) um ensaio de fase 2 sobre a utilização de cibinetida no edema macular diabético, com um curso de 12 semanas. Este estudo é particularmente útil pelo que informa sobre tolerabilidade: os autores descrevem ausência de eventos adversos graves e ausência de anticorpos anti-cibinetida detetáveis, considerando o curso de 12 semanas seguro na população estudada.

Existe ainda interesse documentado na proteção de ilhéus pancreáticos em transplantação, área em que o composto obteve designação de medicamento órfão na União Europeia para prevenção da perda de enxerto em transplantação de ilhéus pancreáticos. Essa designação, como se explica mais abaixo, assenta sobretudo em dados pré-clínicos e no reconhecimento de uma necessidade médica não satisfeita, e não em demonstração de eficácia em seres humanos.

Em resumo, o conjunto da evidência humana disponível reparte-se por três ou quatro ensaios de fase 2, todos de curta duração e dimensão reduzida, conduzidos em grande medida pelas mesmas equipas de investigação.

O que mostram os estudos pré-clínicos sobre o ARA-290?

A literatura animal e celular sobre o ARA-290 é bastante mais extensa do que a clínica, o que é habitual em peptídeos nesta fase de desenvolvimento. O trabalho mais citado no domínio da dor foi publicado por Swartjes e colaboradores em Molecular Pain (2014): em modelos de dor neuropática em roedores, o peptídeo produziu alívio prolongado do comportamento doloroso, associado a supressão da resposta da micróglia espinhal. Trabalhos anteriores do mesmo grupo recorreram a ratinhos sem o receptor beta comum (CD131) para testar a dependência do efeito em relação ao receptor proposto, uma abordagem metodologicamente relevante porque liga o efeito observado ao mecanismo postulado.

Na área da inflamação e da proteção de órgãos, Watanabe e colaboradores descreveram em Transplantation (2016) que o ARA-290 inibiu a ativação de macrófagos e preveniu a lesão de ilhéus pancreáticos transplantados, com redução da secreção de citocinas pró-inflamatórias como a IL-6, a IL-12 e o TNF-alfa e proteção das células produtoras de insulina contra apoptose induzida por citocinas.

Além destas, a literatura pré-clínica publicada abrange modelos de colite experimental, de lúpus eritematoso sistémico em ratinhos, de neurite autoimune experimental, de encefalomielite autoimune experimental, de lesão cardíaca isquémica e de perda de densidade mineral óssea. Esta amplitude é consistente com o mecanismo proposto, uma via de reparação e de contenção da resposta inflamatória inata, mas também deve ser lida com cautela: um composto com efeito aparente em muitos modelos distintos é frequentemente um composto cujo efeito específico é difícil de delimitar.

A regra de interpretação é simples e aplica-se a todos os peptídeos, incluindo os mais discutidos como o BPC-157: resultados em roedores não antecipam de forma fiável resultados em seres humanos, sobretudo em domínios como a dor e a inflamação, onde o efeito placebo e as diferenças entre espécies são particularmente marcados. Para uma visão de conjunto das abordagens peptídicas investigadas em contextos inflamatórios, consulte a nossa análise sobre os peptídeos estudados na inflamação.

Que efeitos indesejáveis foram relatados com o ARA-290?

Nos ensaios clínicos publicados, o ARA-290 foi descrito como bem tolerado. No estudo sobre a neuropatia associada à sarcoidose, os autores relatam melhoria dos sintomas face ao placebo sem eventos adversos evidentes atribuíveis ao fármaco. No ensaio de fase 2 em edema macular diabético, com 12 semanas de exposição, não foram registados eventos adversos graves nem anticorpos anti-cibinetida. Nos trabalhos em diabetes tipo 2, os autores descrevem igualmente ausência de efeitos adversos significativos. Em nenhum destes estudos foi documentado aumento relevante da hemoglobina, o que é coerente com a ausência de ativação do receptor eritropoiético.

Estas observações são encorajadoras, mas o seu valor informativo é limitado por três razões que convém enunciar sem rodeios. Primeiro, as populações estudadas somam poucas centenas de participantes no total, o que apenas permite detetar eventos adversos frequentes. Segundo, a exposição máxima estudada foi de algumas semanas a três meses: nada se sabe sobre administração prolongada. Terceiro, reações no local de injeção e queixas inespecíficas são frequentemente subnotificadas em ensaios de pequena dimensão.

Existem ainda questões teóricas em aberto. Um composto que modula a resposta imunitária inata e favorece vias de reparação tecidual levanta, por princípio, perguntas sobre o comportamento em presença de infeção, de doença autoimune ativa ou de patologia neoplásica, perguntas que os ensaios realizados não foram desenhados para responder. A ausência de sinal de alarme não é equivalente a demonstração de inocuidade, e nenhuma afirmação de segurança a longo prazo pode ser feita com os dados existentes.

Um risco de natureza completamente diferente merece destaque: o ARA-290 é vendido em canais não regulamentados como produto rotulado para investigação. Nestes circuitos não existe garantia de identidade, pureza, esterilidade, conteúdo em endotoxinas ou estabilidade do produto, e os certificados de análise fornecidos não substituem o controlo de qualidade farmacêutico. Para o leitor, isto significa que o perfil de segurança descrito na literatura, que se refere a material de grau clínico administrado sob supervisão médica em protocolo aprovado, não é transferível para um frasco adquirido online. Abordamos esta distinção em detalhe no artigo sobre segurança dos peptídeos.

Aviso médico: este artigo tem finalidade exclusivamente educativa. Não indica posologias, vias de administração nem protocolos, e não constitui conselho médico. Qualquer decisão relativa a saúde deve ser discutida com um profissional de saúde qualificado.

Qual é o estatuto regulamentar do ARA-290?

O ponto mais importante é também o mais simples: o ARA-290 (cibinetida) não está aprovado pela Food and Drug Administration dos Estados Unidos, pela Agência Europeia de Medicamentos ou por qualquer outra autoridade reguladora de referência, para nenhuma indicação. Não é um medicamento disponível por prescrição, nem um suplemento, nem um produto cosmético autorizado.

A base de dados IUPHAR/BPS Guide to Pharmacology classifica a cibinetida como candidato em fase 2 para doenças neuropáticas e retinianas, e registam-se designações de medicamento órfão: pela FDA, para o tratamento da dor neuropática em doentes com sarcoidose e para o tratamento da sarcoidose; pela EMA, para a prevenção da perda de enxerto em transplantação de ilhéus pancreáticos e para o tratamento da sarcoidose. É essencial compreender o que estas designações significam. Uma designação órfã é um incentivo ao desenvolvimento em doenças raras, que confere vantagens regulamentares e de exclusividade ao promotor. Não é uma aprovação, não atesta eficácia e não permite comercialização.

Até à data não existem ensaios de fase 3 publicados com o ARA-290, o que significa que o programa clínico não avançou para a etapa que habitualmente sustenta um pedido de autorização de introdução no mercado. Qualquer apresentação do composto como terapia disponível ou validada é, por isso, incorreta.

O estatuto legal da posse e da venda varia entre jurisdições. Em muitos países, peptídeos deste tipo circulam sob a etiqueta de uso exclusivo em investigação, o que não autoriza a administração humana; a venda para consumo humano é tipicamente ilegal, e a importação pode constituir infração. Em contexto desportivo, as substâncias que atuam em vias de fatores de crescimento e de hormonas peptídicas estão sujeitas a escrutínio no âmbito das listas antidopagem, pelo que atletas sob regulamento devem verificar a situação junto da sua autoridade nacional antes de qualquer consideração.

Qual é o nível de evidência global e como se compara com outros peptídeos?

Colocar o ARA-290 na hierarquia da evidência ajuda a situar as expectativas. Do mais fraco para o mais forte, temos: dados celulares, modelos animais, séries de casos, ensaios de fase 2 randomizados e controlados, ensaios de fase 3 replicados e, por fim, aprovação regulamentar com farmacovigilância. O ARA-290 encontra-se no patamar dos ensaios de fase 2 randomizados e controlados por placebo, com desfechos sobretudo substitutos, amostras pequenas e sem replicação independente. É um posicionamento intermédio: muito acima da maioria dos peptídeos comercializados em canais paralelos, muito abaixo do que é exigido para uso clínico.

A comparação é instrutiva. O BPC-157, de longe o peptídeo mais procurado na categoria da reparação tecidual, dispõe de uma literatura pré-clínica abundante mas praticamente nenhuma evidência humana controlada publicada, e nenhum ensaio de fase 3. A timosina alfa-1, pelo contrário, está aprovada em vários países para indicações específicas, o que a coloca num patamar diferente de escrutínio regulamentar. O ARA-290 situa-se entre estes dois extremos: tem dados humanos randomizados, o que é raro neste universo, mas não tem aprovação em lado algum.

Esta posição intermédia é precisamente o que torna o composto vulnerável à sobreinterpretação comercial. A existência de um ensaio de fase 2b que atingiu o seu desfecho primário é frequentemente apresentada como prova de eficácia clínica, quando o que demonstra é que vale a pena estudar o composto em maior escala. O desfecho primário em causa foi uma medida morfológica da córnea, não a resolução da neuropatia nem a redução sustentada da dor a longo prazo.

Para o leitor que acompanha a investigação em peptídeos, a leitura razoável é a seguinte: o ARA-290 representa uma hipótese farmacológica elegante, a separação da proteção tecidual da estimulação eritroide, apoiada por sinais clínicos iniciais consistentes numa população rara e bem definida. O que falta é aquilo que falta quase sempre: ensaios maiores, mais longos, independentes e com desfechos clínicos relevantes para os doentes. Até lá, o ARA-290 pertence ao domínio da ciência em curso, e não ao das opções terapêuticas.

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Perguntas frequentes sobre o ARA-290

O ARA-290 é o mesmo que eritropoietina?
Não. O ARA-290 (cibinetida) é um peptídeo sintético de 11 aminoácidos desenhado a partir de uma região específica da eritropoietina, a face externa da hélice B. A eritropoietina é uma glicoproteína completa, com cerca de 30 kDa, que ativa o receptor eritropoiético clássico e estimula a produção de glóbulos vermelhos. O ARA-290 foi concebido para não ativar esse receptor, e nos estudos publicados em seres humanos não foi documentado aumento relevante da hemoglobina.
O ARA-290 está aprovado pela FDA ou pela EMA?
Não. A cibinetida não tem aprovação de comercialização em nenhuma jurisdição de referência. Está classificada em bases de dados farmacológicas como candidato em fase 2 e recebeu designações de medicamento órfão da FDA (dor neuropática na sarcoidose e sarcoidose) e da EMA (sarcoidose e prevenção da perda de enxerto em transplantação de ilhéus pancreáticos). Uma designação órfã é um incentivo ao desenvolvimento em doenças raras e não equivale a autorização nem a demonstração de eficácia.
Que ensaios clínicos foram publicados com o ARA-290?
Os principais são: um ensaio cego e controlado por placebo na neuropatia de pequenas fibras associada à sarcoidose, publicado no Journal of Translational Medicine em 2013, com 28 dias de administração subcutânea diária; um estudo de fase 2b na mesma população, cujos resultados corneanos foram publicados em Investigative Ophthalmology and Visual Science em 2017 e que atingiu o desfecho primário de área das fibras nervosas da córnea; um ensaio em doentes com diabetes tipo 2 e sintomas neuropáticos publicado em Molecular Medicine; e um ensaio de fase 2 em edema macular diabético publicado em Journal of Clinical Medicine em 2020.
O que é o receptor de reparação inata?
É o nome dado na literatura a um heterómero constituído pela subunidade do receptor da eritropoietina (EPOR) em associação com o receptor beta comum (CD131). Segundo o modelo proposto por Brines e Cerami, este receptor é distinto do receptor hematopoiético e a sua ativação desencadeia respostas anti-inflamatórias e antiapoptóticas em tecidos lesados. É o alvo postulado do ARA-290, embora a caracterização funcional deste heterómero continue a ser objeto de debate científico.
Existe evidência de que o ARA-290 ajude na neuropatia diabética?
Existe um sinal exploratório, não uma demonstração. Num ensaio de fase 2 publicado em Molecular Medicine, com administração subcutânea diária durante 28 dias e um mês adicional de seguimento, os autores descrevem melhoria dos sintomas neuropáticos avaliados pelo questionário PainDetect, além de melhoria da hemoglobina glicada e do perfil lipídico. A amostra era pequena e a duração muito curta face à evolução natural da neuropatia diabética, pelo que estes resultados precisam de confirmação em estudos maiores e mais longos.
Quais são os efeitos indesejáveis conhecidos do ARA-290?
Nos ensaios publicados, o peptídeo foi descrito como bem tolerado, sem eventos adversos graves atribuídos ao fármaco e, no estudo oftalmológico de 12 semanas, sem anticorpos anti-cibinetida detetáveis. Esta informação é limitada: as populações estudadas são pequenas e a exposição máxima foi de algumas semanas a três meses, o que não permite afirmar nada sobre segurança a longo prazo, nem sobre o comportamento em doentes com infeção, doença autoimune ativa ou patologia neoplásica.
Qual é o estatuto legal do ARA-290?
Varia por jurisdição. Em muitos países, o ARA-290 circula apenas como produto rotulado para uso exclusivo em investigação, o que não autoriza a administração em seres humanos; a venda para consumo humano é tipicamente ilegal e a importação pode constituir infração. Atletas sujeitos a regulamento antidopagem devem verificar a situação junto da respetiva autoridade nacional, dado o escrutínio aplicado às hormonas peptídicas e aos moduladores de vias de fatores de crescimento.
O ARA-290 tem mais evidência científica do que o BPC-157?
Em evidência humana controlada, sim. O ARA-290 dispõe de ensaios randomizados e controlados por placebo publicados, incluindo um estudo de fase 2b que atingiu o seu desfecho primário, enquanto o BPC-157 tem uma literatura pré-clínica extensa mas praticamente nenhum ensaio humano controlado publicado. Isso não significa que o ARA-290 seja eficaz ou adequado para utilização: continua sem aprovação regulamentar, sem ensaios de fase 3 publicados e sem replicação independente dos resultados existentes.

Fontes

  1. Dahan A, Dunne A, Swartjes M, et al. (2013). ARA 290 improves symptoms in patients with sarcoidosis-associated small nerve fiber loss and increases corneal nerve fiber density. Journal of Translational Medicine. (PubMed)
  2. Culver DA, Dahan A, Bajorunas D, et al. (2017). Cibinetide improves corneal nerve fiber abundance in patients with sarcoidosis-associated small nerve fiber loss and neuropathic pain. Investigative Ophthalmology and Visual Science.
  3. Brines M, Dunne A, van Velzen M, et al. (2014). ARA 290, a nonerythropoietic peptide engineered from erythropoietin, improves metabolic control and neuropathic symptoms in patients with type 2 diabetes. Molecular Medicine (vol. 20, pp. 658-666).
  4. Lois N, Gardner E, McFarland M, Brines M (2020). A Phase 2 Clinical Trial on the Use of Cibinetide for the Treatment of Diabetic Macular Edema. Journal of Clinical Medicine. (PMC)
  5. Dahan A, Brines M, Niesters M, Cerami A, van Velzen M (2016). Targeting the innate repair receptor to treat neuropathy. Pain Reports. (PMC)
  6. Brines M, Cerami A (2012). The receptor that tames the innate immune response. Molecular Medicine. (PubMed)
  7. Swartjes M, Niesters M, Heij L, et al. (2014). ARA 290, a peptide derived from the tertiary structure of erythropoietin, produces long-term relief of neuropathic pain coupled with suppression of the spinal microglia response. Molecular Pain. (PubMed)
  8. Watanabe M, Lundgren T, Saito Y, et al. (2016). A Nonhematopoietic Erythropoietin Analogue, ARA 290, Inhibits Macrophage Activation and Prevents Damage to Transplanted Islets. Transplantation. (PubMed)
  9. IUPHAR/BPS Guide to Pharmacology (2026). Cibinetide: clinical data and orphan designations. Guide to Pharmacology database. (guidetopharmacology.org)
  10. Araim Pharmaceuticals (2014). Study of Efficacy of ARA 290 on Corneal Nerve Fiber Density and Neuropathic Symptoms of Subjects With Sarcoidosis (NCT02039687). ClinicalTrials.gov. (clinicaltrials.gov)

Este conteúdo é fornecido apenas para fins informativos e educacionais. Não constitui aconselhamento médico. Consulte um profissional de saúde antes de tomar qualquer decisão. Leia nosso aviso médico completo

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