Pressione ESC para fechar

Peptide Lab App Entrar Artigos Guia Produtos
Mais Peptide Tracker Calculadora Melhores calculadoras Estatísticas Contato Newsletter
Français English Deutsch Español Português العربية Italiano Polski 한국어 日本語 中文 RU
Cerebro
lysin

Cerebrolysin

Concentrado de peptídeos derivados de cérebro porcino (hidrolisado proteico cerebral)

Não aplicável (mistura; fração peptídica abaixo de 10 kDa) Peso molecular
Não aplicável (mistura de peptídeos e aminoácidos, sem fórmula molecular única) Fórmula
Medicamento injetável aprovado em alguns países (Europa Central e do Leste, Ásia, Comunidade de Estados Independentes, entre outros). Não aprovado pela FDA nos Estados Unidos nem pela EMA a nível europeu centralizado. Lista de países e indicações variável: verificar junto da autoridade reguladora nacional. Estatuto
Sem sequência única: mistura heterogénea de peptídeos de baixo peso molecular (fração ativa abaixo de 10 kDa) e de aminoácidos livres, obtida por proteólise enzimática padronizada de proteínas cerebrais porcinas isentas de lípidos
Cerebrolysin Photo: Ivan S

O que é a Cerebrolysin?

A Cerebrolysin é uma preparação injetável desenvolvida e comercializada pela empresa austríaca EVER Pharma, obtida a partir de tecido cerebral de porco. Trata-se de um hidrolisado proteico: as proteínas cerebrais são decompostas enzimaticamente até originarem uma solução que contém peptídeos de baixo peso molecular e aminoácidos livres. Não é, por isso, uma molécula única como o BPC-157 ou o GHK-Cu, mas uma mistura complexa cuja composição é definida por um processo de fabrico padronizado e não por uma sequência de aminoácidos.

Esta distinção é mais do que um detalhe técnico. Quando se fala de um peptídeo isolado, é possível indicar uma sequência, um peso molecular e uma fórmula química. No caso da Cerebrolysin, nenhuma dessas informações existe num formato único, porque o produto é caracterizado pelo seu perfil global e pelos controlos de qualidade do lote. Qualquer página que apresente uma fórmula molecular precisa para a Cerebrolysin está, na prática, a inventar uma informação que não faz sentido farmacológico.

O que torna a Cerebrolysin invulgar no universo dos peptídeos é o seu percurso clínico. Enquanto a maior parte dos compostos discutidos em fóruns de biohacking tem apenas estudos em animais, a Cerebrolysin acumulou décadas de ensaios aleatorizados em seres humanos, incluindo estudos multicêntricos com mais de mil participantes, em três grandes áreas: o acidente vascular cerebral (AVC) isquémico agudo, o traumatismo cranioencefálico (TCE) e as demências. Em vários países é um medicamento de prescrição utilizado em hospitais.

Essa abundância de dados não se traduziu, no entanto, num consenso científico. As conclusões variam de forma substancial entre meta-análises favoráveis e revisões sistemáticas independentes que não encontram benefício clínico demonstrado. Compreender porque é que investigadores competentes chegam a leituras tão diferentes a partir do mesmo conjunto de ensaios é, provavelmente, o aspeto mais instrutivo de toda a literatura sobre a Cerebrolysin.

Nota importante: este guia descreve literatura científica para fins educativos. Não contém recomendações de dose, de via de administração nem de protocolo, e não constitui aconselhamento médico.

De que é feita a Cerebrolysin e como é produzida?

A Cerebrolysin é descrita na literatura como uma preparação obtida por proteólise enzimática padronizada de proteínas cerebrais porcinas isentas de lípidos. O cérebro de porco é processado para remover lípidos e material de alto peso molecular, as proteínas restantes são digeridas por enzimas em condições controladas, e o resultado é filtrado e estabilizado numa solução aquosa estéril destinada a administração parenteral.

O produto final combina duas frações. A primeira é constituída por aminoácidos livres, que representam a maior parte da massa seca. A segunda é a fração peptídica de baixo peso molecular, convencionalmente definida como abaixo de 10 kDa, e é a esta fração que o fabricante e a literatura atribuem a atividade biológica proposta. As proporções exatas entre as duas frações são apresentadas de forma diferente por diferentes fontes secundárias, pelo que este guia não avança um valor percentual específico.

A consequência prática desta estrutura é a dificuldade de caracterização analítica. Um medicamento composto por uma molécula única pode ser doseado e identificado com precisão. Uma mistura de centenas de fragmentos peptídicos, pelo contrário, só pode ser controlada por métodos de perfil, como a cromatografia associada a espetrometria de massa, que verificam se um lote se assemelha ao padrão de referência. Isto coloca a Cerebrolysin numa categoria regulatória próxima dos medicamentos biológicos derivados de tecido, em que o processo de fabrico define o produto.

Há ainda uma dimensão específica das preparações de origem animal: a segurança virológica e de prião. Produtos derivados de tecido nervoso de mamíferos estão sujeitos a requisitos de rastreabilidade da origem dos animais e de validação dos passos de inativação. Nos países onde a Cerebrolysin está registada, estes requisitos fazem parte do dossiê aprovado e da monitorização pós-comercialização. Em material vendido fora de um circuito farmacêutico regulado, não existe qualquer garantia equivalente.

Existem também preparações parentes, produzidas por processos semelhantes a partir de tecido cerebral de outras espécies. A Cortexin, derivada de cérebro bovino, é o exemplo mais conhecido e foi incluída, juntamente com a Cerebrolysin, na revisão Cochrane de 2023 sobre o AVC isquémico agudo. Para saber mais sobre a lógica geral de segurança destas substâncias, pode consultar o nosso artigo sobre a segurança dos peptídeos.

Qual é o mecanismo neurotrófico proposto?

A hipótese central em torno da Cerebrolysin é a de uma atividade de tipo neurotrófico. Os fatores neurotróficos são proteínas endógenas, como o fator de crescimento nervoso (NGF), o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) ou o fator neurotrófico ciliar (CNTF), que regulam a sobrevivência dos neurónios, o crescimento de prolongamentos e a formação de sinapses. Estas proteínas são moléculas grandes que não atravessam facilmente a barreira hematoencefálica, o que tornou pouco viável a sua administração direta como medicamentos.

A proposta farmacológica é que os peptídeos de baixo peso molecular presentes na Cerebrolysin reproduzam parcialmente a ação desses fatores, contornando a limitação de tamanho. Uma revisão de farmacologia publicada por Masliah e Díez-Tejedor em 2012 organizou os efeitos descritos em modelos pré-clínicos em quatro grandes categorias: proteção neuronal face à agressão isquémica, modulação da neuroinflamação, suporte à neuroplasticidade e à neurogénese, e redução de processos de degeneração sináptica.

Nos modelos animais, foram descritos efeitos sobre a redução do volume de infarto após oclusão arterial experimental, sobre a diminuição da apoptose neuronal, sobre a estabilização do citoesqueleto e sobre marcadores de plasticidade no hipocampo. Alguns trabalhos descreveram ainda efeitos sobre o processamento da proteína precursora de amiloide em modelos de patologia de tipo Alzheimer. Convém assinalar que parte da literatura pré-clínica nesta área sofreu retratações, e que a transposição destes achados para o cérebro humano lesionado permanece uma extrapolação.

A limitação conceptual mais importante é a seguinte: não existe um mecanismo molecular único e verificado. Como a preparação contém muitos fragmentos diferentes, não é possível atribuir um efeito a um ligando específico num recetor específico, nem estabelecer uma relação clássica entre concentração plasmática e efeito. Fala-se, por isso, de ação pleiotrópica ou multimodal, uma formulação honesta mas que também torna a hipótese difícil de falsificar experimentalmente.

Esta ambiguidade mecanística é uma das razões pelas quais a comunidade neurológica se divide. Um mecanismo plausível e amplo pode explicar resultados positivos, mas também permite reinterpretar resultados negativos sem abandonar a hipótese. É um padrão que se encontra frequentemente em compostos neuroprotetores, uma área em que muitos candidatos com excelente racional pré-clínico falharam depois em ensaios de fase III.

O que mostram os ensaios no AVC isquémico agudo?

O AVC isquémico é a indicação mais estudada. O maior ensaio aleatorizado publicado é o CASTA (Cerebrolysin Acute Stroke Treatment in Asia), publicado por Heiss e colegas na revista Stroke em 2012. O estudo, duplamente cego e controlado por placebo, incluiu 1 070 participantes (529 no grupo Cerebrolysin e 541 no grupo placebo), recrutados em 51 centros da China, Hong Kong, Coreia do Sul e Myanmar, e aleatorizados nas primeiras 12 horas após o início dos sintomas, em acréscimo à terapêutica padrão com ácido acetilsalicílico.

O resultado do CASTA é claro e frequentemente mal citado: o objetivo primário não foi atingido. O teste global combinado, que integrava a escala NIHSS, a escala de Rankin modificada e o índice de Barthel ao dia 90, não mostrou diferença estatisticamente significativa entre Cerebrolysin e placebo na população global do ensaio. Os autores descreveram sinais sugestivos de benefício em subgrupos com AVC mais grave, mas análises de subgrupo de um ensaio negativo são geradoras de hipóteses, não demonstrações de eficácia.

O ensaio CARS (Cerebrolysin and Recovery After Stroke), publicado por Muresanu e colegas em Stroke em 2016, abordou uma questão diferente: não a neuroproteção na fase hiperaguda, mas a recuperação motora quando o tratamento é iniciado entre 24 e 72 horas após o AVC, em associação com reabilitação padronizada. O desfecho primário era o Action Research Arm Test ao dia 90, uma medida de função do membro superior. O CARS relatou uma superioridade da Cerebrolysin face ao placebo, com um estimador de Mann-Whitney de 0,71 (intervalo de confiança de 95%: 0,63 a 0,79; p inferior a 0,0001), e um efeito de dimensão pequena a média sobre o estado global avaliado por 12 escalas de desfecho (estimador de Mann-Whitney 0,62; intervalo de confiança de 95%: 0,58 a 0,65; p inferior a 0,0001).

A diferença entre CASTA e CARS é instrutiva. Um ensaio grande testou a neuroproteção precoce e falhou; um ensaio menor testou a facilitação da recuperação motora no contexto de reabilitação e descreveu um efeito importante. Isto pode significar que a janela terapêutica e o desfecho escolhido são determinantes, ou pode refletir as diferenças de dimensão, de população e de risco de viés entre os dois estudos. Ambas as leituras continuam a ser defendidas na literatura.

Do lado das recomendações clínicas, a orientação conjunta da European Academy of Neurology e da European Federation of Neurorehabilitation Societies, publicada por Beghi e colegas em 2021 na European Journal of Neurology, emitiu uma recomendação fraca a favor da Cerebrolysin como terapêutica adjuvante na neurorreabilitação motora precoce após AVC isquémico moderado a grave (NIHSS igual ou superior a 8), quando iniciada nos primeiros sete dias. Uma recomendação fraca, na metodologia GRADE, significa precisamente que os efeitos desejáveis provavelmente superam os indesejáveis, mas com incerteza considerável.

Porque é que as revisões Cochrane são mais cautelosas?

A avaliação independente mais exigente da Cerebrolysin no AVC agudo é a revisão Cochrane conduzida por Ziganshina e colegas, atualizada em outubro de 2023. Esta revisão incluiu sete estudos com 1 773 participantes com AVC isquémico agudo, abrangendo tanto a Cerebrolysin como a Cortexin, uma preparação semelhante derivada de cérebro bovino, administradas em acréscimo à terapêutica padrão.

A conclusão principal é negativa quanto à eficácia. Com evidência de certeza moderada, os autores concluíram que a Cerebrolysin ou preparações semelhantes provavelmente não produzem diferença na mortalidade por todas as causas, com um risco relativo de 0,96 (intervalo de confiança de 95%: 0,65 a 1,41), a partir de 6 ensaios e 1 689 participantes. Para os restantes desfechos clínicos relevantes, a revisão considerou a evidência insuficiente para estabelecer um efeito sobre a sobrevivência sem dependência funcional.

O achado de segurança é igualmente notável. A revisão descreveu um aumento do número total de participantes com eventos adversos graves não fatais, com um risco relativo de 2,39 (intervalo de confiança de 95%: 1,10 a 5,23), a partir de 3 ensaios e 1 335 participantes. No subgrupo que utilizou o esquema de dose cumulativa mais elevada, o aumento foi mais marcado, com um risco relativo de 2,87 (intervalo de confiança de 95%: 1,24 a 6,69), a partir de 2 ensaios e 1 189 participantes. Este sinal contrasta com a descrição habitual da Cerebrolysin como bem tolerada.

Porque é que a leitura Cochrane difere tanto de várias meta-análises publicadas? Há três razões recorrentes. A primeira é o conjunto de estudos incluídos: as revisões Cochrane aplicam critérios restritos e integram ensaios menos divulgados, enquanto outras meta-análises se concentram em estudos selecionados. A segunda é a metodologia estatística: desfechos clássicos como morte e dependência comportam-se de forma diferente de testes multivariados globais construídos a partir de múltiplas escalas. A terceira é o risco de viés, com muitos ensaios conduzidos num número restrito de países, com dimensões reduzidas e com publicação em revistas de menor circulação.

A esta discussão acresce uma questão de independência. Vários dos maiores ensaios e das meta-análises favoráveis foram financiados pelo fabricante ou contaram com autores ligados a este, o que é declarado nas próprias publicações. Isto não invalida automaticamente os resultados, mas é um fator de ponderação reconhecido na avaliação de evidência, e ajuda a explicar porque é que organismos independentes mantêm uma posição mais reservada do que a literatura patrocinada.

Que evidência existe no traumatismo cranioencefálico?

O traumatismo cranioencefálico moderado a grave é a segunda grande área de investigação clínica. O programa mais estruturado é a série de ensaios CAPTAIN (Cerebrolysin Asian Pacific Trial in Acute Brain Injury and Neurorecovery), composta por dois ensaios de fase IIIb/IV prospetivos, aleatorizados, duplamente cegos e controlados por placebo, em que a Cerebrolysin foi administrada em acréscimo aos cuidados habituais.

A meta-análise prospetiva da série CAPTAIN, publicada na revista Neurological Sciences em 2021, reuniu 185 participantes com pontuação na Escala de Coma de Glasgow à admissão entre 6 e 12, com uma pontuação média de 10,3 e uma idade média de 45,3 anos. O desfecho primário era um conjunto multidimensional de escalas funcionais e neuropsicológicas. Os autores descreveram um efeito de dimensão pequena a média favorável à Cerebrolysin, estatisticamente significativo ao dia 30 e ao dia 90.

Uma meta-análise prospetiva, em que o plano de análise conjunta é definido antes dos resultados, é metodologicamente superior a uma agregação retrospetiva de ensaios heterogéneos. Esse é o ponto forte do programa CAPTAIN. O ponto fraco é igualmente evidente: 185 participantes é uma amostra pequena para uma patologia tão heterogénea como o traumatismo cranioencefálico, em que a gravidade inicial, o tipo de lesão, a idade e a qualidade dos cuidados intensivos influenciam fortemente o prognóstico.

Importa também sublinhar a natureza do desfecho primário. Um desfecho multidimensional combinado, construído a partir de várias escalas, aumenta a sensibilidade estatística para detetar diferenças, mas dificulta a tradução em benefício clínico concreto. Saber se um efeito deste tipo corresponde a um doente que recupera autonomia na marcha, ou que regressa ao trabalho, exige desfechos funcionais individuais e seguimento mais prolongado.

Por isso, a situação no traumatismo cranioencefálico é a seguinte: existem dados aleatorizados prospetivos que apontam numa direção favorável, não existe um ensaio de grande dimensão, independente e multinacional que confirme esses dados, e a Cerebrolysin não figura como terapêutica recomendada nas principais orientações internacionais de tratamento do traumatismo cranioencefálico grave. Qualquer decisão clínica nesta área pertence exclusivamente à equipa médica responsável.

E na demência vascular e na doença de Alzheimer?

A terceira área de investigação são as demências, e é aqui que a Cerebrolysin tem a sua avaliação independente mais favorável. A revisão Cochrane Cerebrolysin for vascular dementia, publicada por Chen e colegas em 2013, incluiu seis ensaios aleatorizados com 597 participantes, com idades médias entre 60,4 e 70,8 anos. Os revisores classificaram um dos ensaios como de boa qualidade, quatro como de qualidade razoável e um como de má qualidade.

As meta-análises dessa revisão identificaram um efeito benéfico sobre a função cognitiva global, medida pelo Mini Mental State Examination e pela subescala cognitiva da Alzheimer's Disease Assessment Scale, bem como uma melhoria do estado clínico global. Não foram relatados eventos adversos graves atribuídos ao tratamento nos ensaios incluídos. Apesar disso, os autores foram explícitos: a Cerebrolysin não pode ser recomendada como tratamento de rotina da demência vascular, porque o número de participantes é reduzido, a qualidade metodológica é desigual e falta evidência sobre desfechos de longo prazo.

Na doença de Alzheimer, a referência mais citada é a meta-análise de Gauthier e colegas, publicada em Dementia and Geriatric Cognitive Disorders em 2015. Este trabalho reuniu seis ensaios aleatorizados, duplamente cegos e controlados por placebo, com um total de 784 participantes com doença de Alzheimer ligeira a moderada, utilizando dados individuais e agregados numa abordagem por intenção de tratar. Os autores descreveram um efeito terapêutico global favorável e uma relação benefício-risco considerada vantajosa.

A leitura desta meta-análise exige as mesmas cautelas já mencionadas. Trata-se de uma síntese conduzida por autores com ligações ao desenvolvimento clínico do produto, baseada em ensaios de dimensão moderada e duração limitada, com desfechos cognitivos de curto prazo. A doença de Alzheimer é uma área em que muitas intervenções mostraram efeitos modestos em escalas cognitivas sem demonstrar impacto na progressão funcional, e nenhuma autoridade reguladora ocidental reconheceu a Cerebrolysin como terapêutica desta doença.

Em resumo, nas demências a evidência é mais favorável do que no AVC agudo, mas insuficiente para sustentar uma utilização generalizada. Esta é precisamente a posição expressa pelos próprios revisores Cochrane: um sinal de eficácia cognitiva que merece ensaios maiores e mais longos, e não uma conclusão definitiva. Leitores interessados no panorama mais amplo dos peptídeos estudados em função cognitiva podem consultar a nossa visão geral dos peptídeos investigados no cérebro e na cognição.

Quais são os efeitos indesejáveis relatados?

O perfil de tolerabilidade descrito na informação do produto e nos relatórios de ensaios inclui reações geralmente ligeiras e transitórias: tonturas ou vertigem, cefaleia, náuseas, sudorese, sensação de calor, agitação e reações locais no ponto de injeção, como rubor, prurido ou sensação de queimadura. Várias destas manifestações foram descritas sobretudo em associação com administração intravenosa demasiado rápida.

Foram ainda descritos, de forma menos frequente, estados de agitação com confusão ou insónia, alterações da tensão arterial e, em casos isolados, alterações do ritmo cardíaco. Reações de hipersensibilidade são possíveis, como com qualquer preparação parenteral de origem biológica. Nos ensaios clínicos, vários destes eventos ocorreram com frequência semelhante nos grupos Cerebrolysin e placebo, o que torna difícil atribuí-los especificamente ao produto.

A evidência quantitativa de segurança é, ela própria, divergente. Uma meta-análise de segurança publicada por Strilciuc e colegas na revista Pharmaceuticals em 2021 agregou 2 202 participantes de 12 ensaios aleatorizados em AVC isquémico agudo e não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre Cerebrolysin e placebo nas análises principais e de subgrupo, concluindo a favor de um bom perfil de segurança.

Em sentido oposto, a já referida revisão Cochrane de 2023 descreveu um aumento dos eventos adversos graves não fatais, com um risco relativo de 2,39 (intervalo de confiança de 95%: 1,10 a 5,23) em três ensaios com 1 335 participantes, sendo o sinal mais pronunciado no subgrupo com a dose cumulativa mais elevada. Duas sínteses metodologicamente defensáveis chegam, assim, a conclusões de segurança diferentes, o que recomenda prudência em qualquer afirmação categórica sobre a inocuidade do produto.

Existe, finalmente, um risco que nada tem que ver com a farmacologia: o da aquisição fora de circuitos regulados. A Cerebrolysin é um injetável derivado de tecido animal, cuja garantia de esterilidade, de rastreabilidade da origem e de inativação de agentes infeciosos depende integralmente do cumprimento das boas práticas de fabrico. Ampolas obtidas em mercados paralelos não oferecem nenhuma dessas garantias, independentemente do aspeto da embalagem. Este artigo não indica doses, vias nem protocolos de utilização, e a decisão sobre qualquer medicamento injetável pertence a um profissional de saúde qualificado.

Qual é o estatuto regulatório nos diferentes países?

O estatuto da Cerebrolysin é um dos aspetos mais mal explicados na divulgação online. O produto é um medicamento de prescrição aprovado em vários países, com registos concentrados na Europa Central e do Leste, em países da Comunidade de Estados Independentes, em diversos mercados asiáticos e em alguns países do Oriente Médio e da América Latina. Nestes mercados é utilizado em meio hospitalar ou ambulatório especializado, com indicações que podem incluir o AVC isquémico, o traumatismo cranioencefálico e as demências.

Simultaneamente, a Cerebrolysin não é aprovada pela Food and Drug Administration nos Estados Unidos e não dispõe de autorização de introdução no mercado pela Agência Europeia de Medicamentos a nível centralizado, não estando disponível como medicamento aprovado na maior parte da Europa Ocidental. A sua importação por particulares pode constituir infração em várias jurisdições.

É essencial compreender que a lista exata de países e de indicações aprovadas varia ao longo do tempo e difere entre reguladores nacionais. Os números de países frequentemente citados em sítios comerciais não são verificáveis a partir de fontes reguladoras primárias e não são reproduzidos aqui. A única forma fiável de conhecer o estatuto num país é consultar o registo nacional de medicamentos dessa jurisdição.

Esta assimetria regulatória tem uma explicação metodológica simples. Um registo aprovado num país não equivale a um reconhecimento universal de eficácia: reflete o dossiê apresentado, os requisitos vigentes à data e o enquadramento histórico de cada sistema. Os reguladores norte-americano e europeu ocidental exigem tipicamente, para uma indicação em neurologia aguda, pelo menos um ensaio de fase III amplo com desfecho primário clínico atingido de forma inequívoca, condição que o conjunto atual de dados da Cerebrolysin não satisfaz, como ilustra o resultado do ensaio CASTA.

Para o leitor, a consequência prática é direta: a Cerebrolysin não é um suplemento, não é um produto de uso livre e, nos países onde não está aprovada, qualquer material que circule fora de um circuito farmacêutico legal situa-se num espaço sem supervisão de qualidade. A legalidade e o estatuto variam por jurisdição e devem ser verificados localmente.

Porque circula no meio nootrópico e como se compara com Semax, Selank e Dihexa?

A Cerebrolysin ocupa um lugar particular nas comunidades dedicadas a nootrópicos por uma razão simples: é um dos poucos compostos deste universo com ensaios clínicos humanos reais e revisões sistemáticas dedicadas. Num espaço onde a maioria das substâncias discutidas se apoia em estudos em roedores ou em relatos pessoais, a existência de ensaios multicêntricos com mais de mil participantes confere à Cerebrolysin uma credibilidade percebida muito superior.

Essa perceção produz, no entanto, um erro frequente de transposição. Os ensaios da Cerebrolysin foram conduzidos em populações com lesão neurológica aguda ou demência estabelecida, em meio hospitalar e como terapêutica adjuvante. Nenhum dos ensaios citados neste guia avaliou melhoria cognitiva em adultos saudáveis. Um efeito que facilite a recuperação funcional num cérebro lesionado não permite concluir qualquer benefício num cérebro sem patologia, e não existe evidência clínica que sustente essa extrapolação.

A comparação com outros peptídeos frequentemente discutidos no mesmo contexto ajuda a situar o panorama:

CompostoNaturezaEvidência humanaEstatuto
CerebrolysinMistura de peptídeos e aminoácidos de cérebro porcinoVários ensaios aleatorizados e revisões Cochrane, com resultados discutidosMedicamento aprovado em alguns países, não aprovado pela FDA
SemaxPeptídeo sintético análogo de um fragmento da ACTHLiteratura clínica sobretudo russa, de difícil verificação independenteRegistado na Rússia, sem aprovação ocidental
SelankPeptídeo sintético análogo da tuftsinaEstudos clínicos limitados, principalmente russos, em ansiedadeRegistado na Rússia, sem aprovação ocidental
DihexaPequena molécula peptidomimética derivada da angiotensina IVApenas investigação pré-clínica, sem ensaios clínicos publicadosSubstância de investigação, sem aprovação em qualquer indicação

A hierarquia de evidência é, portanto, bastante nítida. A Cerebrolysin tem a base clínica mais sólida dos quatro, mesmo com todas as limitações descritas. O Semax e o Selank dispõem de literatura clínica, mas concentrada num único sistema de publicação e raramente replicada por equipas independentes, assunto que desenvolvemos na nossa comparação entre Selank e Semax. A Dihexa situa-se no extremo oposto, com dados exclusivamente pré-clínicos e nenhuma avaliação de segurança em humanos publicada.

A conclusão razoável é que a Cerebrolysin merece ser tratada como aquilo que é: um medicamento hospitalar com evidência mista, cuja utilização pertence ao domínio da decisão médica em indicações neurológicas definidas, e não um composto de otimização cognitiva. Este conteúdo tem fins educativos e não substitui a consulta de um profissional de saúde.

Avalie seus conhecimentos

Quiz rápido · 6 perguntas

🧪

Peptide Lab: calculadora e tracker grátis

Calcule sua reconstituição, acompanhe seus peptídeos e injeções. Grátis, sem cartão.

Descobrir o Peptide Lab →

Perguntas frequentes

A Cerebrolysin é um peptídeo único?
Não. A Cerebrolysin é uma mistura heterogénea obtida por proteólise enzimática padronizada de proteínas de cérebro de porco, composta por aminoácidos livres e por uma fração de peptídeos de baixo peso molecular (abaixo de 10 kDa), à qual é atribuída a atividade biológica proposta. Por essa razão, não tem sequência de aminoácidos única, peso molecular único nem fórmula química única. Qualquer fonte que apresente uma fórmula molecular precisa para a Cerebrolysin está a transmitir informação sem fundamento farmacológico.
A Cerebrolysin é aprovada pela FDA?
Não. A Cerebrolysin não está aprovada pela Food and Drug Administration nos Estados Unidos, nem dispõe de autorização centralizada da Agência Europeia de Medicamentos, pelo que não está disponível como medicamento aprovado na maior parte da Europa Ocidental. Está, por outro lado, registada como medicamento de prescrição em vários países, nomeadamente na Europa Central e do Leste, em países da Comunidade de Estados Independentes e em diversos mercados asiáticos. A lista de países e as indicações aprovadas variam no tempo e devem ser confirmadas no registo nacional de medicamentos de cada jurisdição.
A Cerebrolysin funciona no AVC isquémico agudo?
A resposta honesta é que a evidência está dividida. O maior ensaio aleatorizado, o CASTA, com 1 070 participantes, não atingiu o seu desfecho primário combinado ao dia 90. O ensaio CARS, focado na recuperação motora iniciada entre 24 e 72 horas após o AVC, relatou superioridade face ao placebo no Action Research Arm Test ao dia 90. A revisão Cochrane de 2023, com sete estudos e 1 773 participantes, não demonstrou benefício clínico e concluiu, com certeza moderada, que não há diferença na mortalidade por todas as causas. A orientação conjunta da European Academy of Neurology e da European Federation of Neurorehabilitation Societies, de 2021, emitiu uma recomendação fraca a favor do seu uso adjuvante na neurorreabilitação motora precoce após AVC moderado a grave.
Porque é que as meta-análises chegam a conclusões diferentes?
Por três motivos principais. Primeiro, os conjuntos de ensaios incluídos diferem, porque os critérios de seleção e as estratégias de pesquisa não são iguais. Segundo, a metodologia estatística difere: desfechos clínicos clássicos, como morte ou dependência funcional, comportam-se de forma diferente de testes multivariados globais que combinam várias escalas e são mais sensíveis a diferenças pequenas. Terceiro, o risco de viés e a origem do financiamento variam, sendo que várias sínteses favoráveis foram realizadas com apoio ou participação do fabricante, o que é declarado nas publicações e constitui um fator reconhecido de ponderação da evidência.
A Cerebrolysin é segura?
Não é possível afirmar que seja isenta de riscos. Os efeitos descritos são habitualmente ligeiros e incluem tonturas, cefaleia, náuseas, sudorese, agitação e reações no local da injeção, frequentemente associadas a administração intravenosa rápida. Uma meta-análise de segurança com 2 202 participantes de 12 ensaios não encontrou diferenças estatisticamente significativas face ao placebo, mas a revisão Cochrane de 2023 descreveu um aumento dos eventos adversos graves não fatais, com risco relativo de 2,39 em três ensaios com 1 335 participantes. Sendo um injetável derivado de tecido animal, a segurança depende também integralmente das boas práticas de fabrico e da rastreabilidade da origem.
A Cerebrolysin melhora a memória em pessoas saudáveis?
Não existe evidência clínica que sustente essa utilização. Todos os ensaios relevantes foram conduzidos em populações com lesão neurológica aguda, como AVC ou traumatismo cranioencefálico, ou com demência estabelecida, e sempre em contexto médico supervisionado. Um efeito que possa facilitar a recuperação funcional num cérebro lesionado não permite inferir qualquer benefício cognitivo num cérebro sem patologia. A utilização da Cerebrolysin como potenciador cognitivo em adultos saudáveis não está apoiada por dados publicados.
Qual é a diferença entre Cerebrolysin e Cortexin?
Ambas são preparações obtidas por hidrólise de proteínas de tecido cerebral, mas de espécies diferentes: a Cerebrolysin deriva de cérebro de porco e a Cortexin de cérebro bovino. São produtos distintos, de fabricantes distintos e com registos distintos. A revisão Cochrane de 2023 sobre o AVC isquémico agudo analisou as duas em conjunto, por partilharem a mesma lógica de produção e o mesmo mecanismo neurotrófico proposto, e as suas conclusões de ausência de benefício demonstrado aplicam-se a esse conjunto.
Como se compara a Cerebrolysin com o Semax, o Selank e a Dihexa?
A Cerebrolysin tem, dos quatro, a base de evidência humana mais extensa, com ensaios aleatorizados multicêntricos e revisões sistemáticas independentes, ainda que com resultados discutidos. O Semax e o Selank são peptídeos sintéticos registados na Rússia, cuja literatura clínica é sobretudo russa e raramente replicada por equipas independentes. A Dihexa é uma molécula peptidomimética derivada da angiotensina IV com apenas dados pré-clínicos e nenhum ensaio clínico publicado. Nenhum destes compostos está aprovado pela FDA e nenhum deve ser considerado uma opção de otimização cognitiva sem supervisão médica.

Fontes

  1. Ziganshina LE, Abakumova T, Nurkhametova D, Ivanchenko K (2023). Cerebrolysin for acute ischaemic stroke. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2023, Issue 10: CD007026.
  2. Chen N, Yang M, et al. (2013). Cerebrolysin for vascular dementia. Cochrane Database of Systematic Reviews.
  3. Heiss WD, Brainin M, Bornstein NM, Tuomilehto J, Hong Z (CASTA Investigators) (2012). Cerebrolysin in patients with acute ischemic stroke in Asia: results of a double-blind, placebo-controlled randomized trial. Stroke, 43(3):630-636.
  4. Muresanu DF, et al. (2016). Cerebrolysin and Recovery After Stroke (CARS): A Randomized, Placebo-Controlled, Double-Blind, Multicenter Trial. Stroke.
  5. Investigadores da série de ensaios CAPTAIN (2021). Cerebrolysin after moderate to severe traumatic brain injury: prospective meta-analysis of the CAPTAIN trial series. Neurological Sciences, 42(11):4531-4541.
  6. Gauthier S, Proaño JV, Jia J, Froelich L, Vester JC, Doppler E (2015). Cerebrolysin in Mild-to-Moderate Alzheimer's Disease: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Clinical Trials. Dementia and Geriatric Cognitive Disorders, 39(5-6):332-347.
  7. Beghi E, et al. (2021). European Academy of Neurology and European Federation of Neurorehabilitation Societies guideline on pharmacological support in early motor rehabilitation after acute ischaemic stroke. European Journal of Neurology.
  8. Strilciuc S, Vécsei L, Boering D, Pražnikar A, Kaut O, Riederer P, Battistin L (2021). Safety of Cerebrolysin for Neurorecovery after Acute Ischemic Stroke: A Systematic Review and Meta-Analysis of Twelve Randomized-Controlled Trials. Pharmaceuticals, 14(12):1297.
  9. Masliah E, Díez-Tejedor E (2012). The pharmacology of neurotrophic treatment with Cerebrolysin: brain protection and repair to counteract pathologies of acute and chronic neurological disorders. Drugs of Today (Barcelona), 48 Suppl A:3-24.

Este conteúdo é fornecido apenas para fins informativos e educacionais. Não constitui aconselhamento médico. Consulte um profissional de saúde antes de tomar qualquer decisão. Leia nosso aviso médico completo

GHK-Cu
GHK-Cu
Anti-idade poderoso →