- Os peptídeos antimicrobianos (AMPs) são moléculas efetoras da imunidade innata presentes em praticamente todos os seres vivos, em geral com 10 a 50 aminoácidos, carga positiva e estrutura anfipática.
- No ser humano, as famílias mais estudadas são as defensinas, as catelicidinas (cujo único representante maduro é a LL-37) e as histatinas salivares.
- O mecanismo clássico é a desorganização da membrana microbiana, mas vários AMPs têm também alvos intracelulares e uma importante atividade imunomoduladora.
- Alguns peptídeos antimicrobianos de origem microbiana já são medicamentos aprovados, como as polimixinas (incluindo a colistina), a daptomicina e antissépticos tópicos como a bacitracina e a gramicidina.
- Nenhum peptídeo de defesa do hospedeiro, como a LL-37, está aprovado como antibiótico sistêmico: estas moléculas continuam restritas à pesquisa pré-clínica e a ensaios clínicos, na maioria tópicos.
- As limitações documentadas são a toxicidade (por exemplo a nefrotoxicidade das polimixinas), a degradação por proteases, a perda de atividade em sal e soro, e o custo de produção.
- Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa. Não substitui avaliação médica e não contém qualquer protocolo ou posologia.
O que são peptídeos antimicrobianos?
Os peptídeos antimicrobianos (AMPs, do inglês antimicrobial peptides) são pequenas cadeias de aminoácidos capazes de inibir ou matar microrganismos. São um dos componentes mais antigos da imunidade innata: foram descritos em bactérias, fungos, plantas, insetos, anfíbios, peixes, aves e mamíferos, o que sugere que a estratégia de defesa que representam surgiu muito antes dos anticorpos e dos linfócitos. A revisão de referência de Michael Zasloff na Nature consolidou essa visão, apresentando os AMPs como efetores universais da defesa dos organismos multicelulares.
Do ponto de vista estrutural, a classe é heterogênea, e é por isso que não existe uma fórmula química única nem uma massa molecular única para os AMPs. A maioria dos peptídeos descritos compartilha, porém, três características: um tamanho reduzido (tipicamente entre 10 e 50 aminoácidos), uma carga líquida positiva em pH fisiológico, devida a resíduos de lisina e arginina, e um caráter anfipático, isto é, a capacidade de segregar as faces hidrofóbica e hidrofílica da molécula quando entra em contato com uma membrana. Essas três propriedades, e não uma sequência conservada, explicam a maior parte da sua atividade biológica.
A literatura usa também a designação peptídeos de defesa do hospedeiro (PDH, ou HDP em inglês). Essa terminologia, defendida entre outros por Mookherjee e colaboradores na Nature Reviews Drug Discovery, reflete um deslocamento conceitual importante: em concentrações fisiológicas, muitos desses peptídeos matam pouco e sinalizam muito, atuando sobretudo como moduladores da resposta imune. O termo AMP descreve uma atividade observada em laboratório; o termo PDH descreve uma função no organismo.
Uma distinção adicional é útil para não confundir categorias muito diferentes. Os peptídeos de defesa do hospedeiro são sintetizados nos ribossomos a partir de genes, como qualquer proteína. Já vários antibióticos peptídicos de uso clínico, como as polimixinas e a daptomicina, são produzidos por bactérias do solo por via não ribossômica, através de complexos enzimáticos, e frequentemente contêm aminoácidos não naturais e cadeias lipídicas. Ambos os grupos atuam sobre membranas, mas têm origens, propriedades farmacológicas e situações regulatórias muito distintas. Para uma introdução mais geral à biologia dos peptídeos, consulte como funcionam os peptídeos.
Onde os AMPs são encontrados na natureza e no corpo humano?
No ser humano, os AMPs são produzidos nos locais onde o organismo encontra micróbios: pele, mucosas respiratória, digestiva e urogenital, saliva, lágrima, suor e grânulos de células imunes. A sua expressão é em parte constitutiva e em parte induzida pela inflamação ou pelo contato com produtos microbianos.
As famílias humanas mais estudadas são as seguintes:
- Defensinas: peptídeos ricos em cisteína, estabilizados por pontes dissulfeto, divididos em alfa-defensinas e beta-defensinas. Como descreveu Tomas Ganz na Nature Reviews Immunology, as alfa-defensinas estão concentradas nos grânulos dos neutrófilos e nas células de Paneth do intestino delgado, enquanto as beta-defensinas são produzidas sobretudo por epitélios, incluindo a pele e as vias aéreas.
- Catelicidinas: no ser humano existe uma única, derivada da proteína precursora hCAP18. Após clivagem, origina o peptídeo maduro LL-37, assim chamado por começar com dois resíduos de leucina e ter 37 aminoácidos. É um dos AMPs mais caracterizados da literatura, como resume a revisão de Vandamme e colaboradores. O nosso guia sobre a LL-37 detalha esse peptídeo em particular.
- Histatinas: peptídeos ricos em histidina da saliva. O trabalho original de Oppenheim e colaboradores no Journal of Biological Chemistry isolou as histatinas da secreção da parótida humana e demonstrou a sua capacidade de matar o fungo Candida albicans, o que faz desta família um exemplo clássico de defesa antifúngica das mucosas orais.
- Outros efetores: lisozima, lactoferrina e peptídeos derivados de proteínas maiores completam o arsenal das secreções, muitas vezes atuando em conjunto com as famílias anteriores.
Fora do ser humano, a diversidade é enorme. As magaininas, isoladas da pele da rã Xenopus laevis, foram historicamente decisivas para o campo e deram origem a candidatos terapêuticos. Os venenos de abelhas, vespas, escorpiões e serpentes contêm peptídeos citolíticos potentes, como a melitina e as mastoparanas, muito usados como ferramentas de laboratório justamente por serem pouco seletivos. As plantas produzem defensinas vegetais, tioninas e ciclotídeos, e certos fungos produzem peptídeos com pontes dissulfeto estudados como protótipos antibacterianos. As próprias bactérias produzem bacteriocinas, como a nisina, usada há décadas como conservante alimentar.
Esta ubiquidade tem uma consequência prática importante: a presença natural de um peptídeo num organismo vivo não diz nada sobre a sua segurança quando administrado a um ser humano. Vários AMPs de venenos são tóxicos para células de mamíferos nas mesmas concentrações em que são antimicrobianos.
Como os AMPs destroem microrganismos?
O mecanismo mais documentado é a desorganização da membrana. A superfície dos microrganismos é fortemente aniônica: as bactérias Gram-negativas expõem lipopolissacarídeo (LPS), as Gram-positivas apresentam ácidos lipoteicoicos, e as membranas bacterianas são ricas em fosfolipídios de carga negativa, como a fosfatidilglicerol. Os AMPs catiônicos são atraídos eletrostaticamente por essas estruturas, acumulam-se na interface e, ao atingirem uma certa densidade, inserem a sua face hidrofóbica na bicamada.
A literatura descreve vários modelos para o que acontece a seguir, e eles não são mutuamente exclusivos: o modelo do poro em barril (barrel-stave), em que os peptídeos se alinham formando um canal transmembranar; o modelo do poro toroidal, em que a própria bicamada se curva e participa na parede do poro; e o modelo do tapete (carpet), em que a cobertura da superfície acaba por desestruturar a membrana de forma mais difusa. O resultado funcional é comum: perda do gradiente eletroquímico, fuga de solutos, colapso do metabolismo energético e morte celular.
Muitos AMPs, porém, não se limitam à membrana. Depois de a atravessarem, podem ligar-se ao DNA ou ao RNA, inibir a síntese proteica, interferir com enzimas da parede celular ou com a divisão celular. Essa multiplicidade de alvos é um dos argumentos centrais a favor do interesse farmacológico da classe, discutido em detalhe na revisão de Magana e colaboradores no The Lancet Infectious Diseases: atingir simultaneamente várias estruturas essenciais torna mais difícil a seleção de um mutante resistente por uma única alteração genética.
Resta explicar a seletividade. Por que motivo um peptídeo que fura membranas não destrói também as nossas células? A resposta está na composição das bicamadas. As membranas das células de mamíferos têm a sua superfície externa dominada por fosfolipídios neutros, como a fosfatidilcolina, e contêm colesterol, que rigidifica a bicamada e dificulta a inserção dos peptídeos. Essa diferença fornece uma janela de seletividade, mas uma janela estreita: quando a concentração aumenta, muitos AMPs tornam-se hemolíticos ou citotóxicos. É precisamente essa margem limitada que condiciona todo o desenvolvimento clínico da classe.
Um último traço relevante é a velocidade. Lazzaro, Zasloff e Rolff, na Science, destacam que a farmacodinâmica rápida dos AMPs, com morte microbiana em minutos em condições experimentais, reduz o tempo disponível para a bactéria montar uma resposta adaptativa, o que distingue estes peptídeos de antibióticos que dependem de várias gerações celulares para agir.
Os AMPs fazem mais do que matar bactérias?
Sim, e é provavelmente nesse ponto que a compreensão do campo mais mudou nas últimas duas décadas. Nas concentrações realmente encontradas na maior parte dos tecidos, muitos peptídeos de defesa do hospedeiro exercem efeitos de sinalização sobre as células imunes antes de exercerem qualquer efeito bactericida direto. Mookherjee e colaboradores descrevem esse duplo papel como a base do interesse terapêutico da classe, para além da simples substituição de antibióticos.
A LL-37 é o exemplo mais bem documentado. Segundo a revisão de Vandamme e colaboradores, ela atua como quimioatraente para neutrófilos, monócitos e linfócitos T, neutraliza o LPS bacteriano, limitando a cascata inflamatória desencadeada por produtos microbianos, modula a apoptose e participa em processos de angiogênese e de reparação tecidual. Essa variedade de funções levou os autores a descrevê-la como um peptídeo factotum, ou seja, com múltiplos ofícios.
Esse perfil pleiotrópico tem um lado ambíguo que a literatura não esconde. A mesma molécula que contribui para a defesa antimicrobiana e para a cicatrização tem sido associada, em diferentes contextos experimentais, a processos inflamatórios crônicos e à formação de complexos imunogênicos com ácidos nucleicos. Em imunologia, um peptídeo que amplifica sinais pode ser útil ou prejudicial dependendo do tecido, do momento e da concentração, e os dados disponíveis não permitem afirmar que aumentar a sua atividade seja desejável de forma geral.
Outros peptídeos pequenos são estudados principalmente pela vertente imunomoduladora, e não pela atividade bactericida. É o caso do tripeptídeo descrito no nosso guia do KPV, derivado da hormona alfa-MSH e investigado em modelos de inflamação, e da timosina alfa-1, um peptídeo de origem tímica estudado em contextos de regulação da resposta imune. Quem quiser situar esses mecanismos num quadro mais amplo pode consultar a nossa visão geral sobre peptídeos e inflamação.
É importante sublinhar que a maior parte desses efeitos imunomoduladores foi demonstrada em culturas celulares e em modelos animais. A extrapolação para o ser humano não está estabelecida, e nenhuma dessas moléculas está aprovada como imunomodulador de uso corrente com base nesses dados. Qualquer questão clínica relacionada com infecção ou imunidade deve ser discutida com um profissional de saúde.
Por que os AMPs despertam interesse diante da resistência aos antibióticos?
O contexto epidemiológico explica em grande parte a atenção dada a esta classe. A análise sistemática do projeto GRAM publicada no The Lancet em 2024 estimou, para o ano de 2021, cerca de 4,71 milhões de mortes associadas à resistência bacteriana a antimicrobianos em todo o mundo, das quais aproximadamente 1,14 milhão foram consideradas diretamente atribuíveis a essa resistência. O mesmo trabalho projeta, no seu cenário de referência, mais de 39 milhões de mortes atribuíveis à resistência bacteriana no período que vai até 2050. Esses números não dizem respeito aos AMPs, mas definem o problema que se procura resolver.
Nesse quadro, os argumentos a favor dos peptídeos antimicrobianos são essencialmente quatro, conforme sistematizados por Magana e colaboradores:
- Mecanismo multialvo: a ação simultânea sobre a membrana e sobre alvos intracelulares reduz a probabilidade de que uma única mutação confira resistência completa.
- Morte rápida, pouco dependente do estado metabólico da bactéria, o que inclui potencialmente células em estado estacionário e formas pouco responsivas a antibióticos clássicos.
- Atividade sobre biofilmes observada em diversos modelos experimentais, uma limitação conhecida de muitas classes convencionais.
- Sinergia com antibióticos existentes, em parte porque a permeabilização da membrana externa das Gram-negativas facilita a entrada de outras moléculas.
Esses argumentos exigem, no entanto, uma ressalva importante. A ideia de que os AMPs não induzem resistência é incorreta. Lazzaro, Zasloff e Rolff alertam explicitamente para esse risco e defendem que o uso terapêutico de peptídeos muito semelhantes aos nossos próprios efetores imunes poderia, em teoria, selecionar bactérias resistentes também à nossa imunidade innata, um custo qualitativamente diferente daquele associado aos antibióticos convencionais.
A clínica já forneceu demonstrações concretas desse risco. A resistência à colistina, um antibiótico peptídico de último recurso, pode surgir por modificação do lipopolissacarídeo através de sistemas regulatórios cromossômicos e, desde 2015, também por genes plasmidiais do tipo mcr, transmissíveis entre bactérias, como documenta a revisão de Poirel, Jayol e Nordmann na Clinical Microbiology Reviews. Outros mecanismos descritos incluem a secreção de proteases que degradam os peptídeos, bombas de efluxo, cápsulas que impedem o contato com a membrana e proteínas sequestradoras.
Quais peptídeos antimicrobianos já são medicamentos aprovados?
Contrariamente a uma ideia difundida, os peptídeos antimicrobianos já fazem parte da farmacopeia há décadas. Os medicamentos em causa, no entanto, não são peptídeos de defesa do hospedeiro humanos, mas lipopeptídeos e peptídeos cíclicos produzidos por bactérias do solo.
| Fármaco | Origem | Alvo principal | Utilização típica aprovada |
|---|---|---|---|
| Polimixina B e colistina (polimixina E) | Paenibacillus polymyxa | Lipídio A do LPS da membrana externa | Infecções por bactérias Gram-negativas multirresistentes, em geral como última linha; formulações tópicas |
| Daptomicina | Streptomyces roseosporus | Fosfatidilglicerol da membrana, de forma dependente de cálcio | Infecções graves por Gram-positivos, incluindo pele e tecidos moles e bacteriemia |
| Bacitracina | Bacillus spp. | Transporte de precursores da parede celular | Uso tópico cutâneo e oftálmico |
| Gramicidina | Bacillus brevis | Canal iônico na membrana | Uso tópico, frequentemente em associações |
| Nisina | Lactococcus lactis | Lipídio II e membrana | Conservante alimentar autorizado, não antibiótico sistêmico |
A daptomicina ilustra bem tanto o potencial como as restrições da classe. O seu mecanismo, revisto por Taylor e Palmer na Bioorganic & Medicinal Chemistry, implica a formação de um complexo com cálcio que se insere preferencialmente em membranas ricas em fosfatidilglicerol, provocando permeabilização e despolarização rápidas. Essa dependência da composição lipídica explica por que o fármaco é ativo contra Gram-positivos e não contra Gram-negativos, cuja membrana externa constitui uma barreira adicional. A mesma literatura descreve a sua inativação pelo surfactante pulmonar, razão pela qual não é utilizada na pneumonia, e a necessidade de monitorizar efeitos musculares.
As polimixinas contam uma história paralela. Descobertas nos anos 1940, foram progressivamente abandonadas devido à toxicidade, em especial renal e neurológica, e reintroduzidas na prática hospitalar pela escassez de alternativas contra bactérias Gram-negativas resistentes aos carbapenemas. A revisão de Poirel e colaboradores descreve esse retorno como consequência direta do esgotamento do arsenal disponível, e não de uma melhoria do perfil de segurança do fármaco.
Em resumo: existem antibióticos peptídicos aprovados, e são todos de origem microbiana. Nenhuma defensina, catelicidina ou histatina humana obteve até hoje aprovação como medicamento antimicrobiano. A situação regulatória de cada molécula varia conforme a jurisdição e deve ser verificada nas fontes oficiais do país em questão.
O que está em ensaios clínicos e por que tantos candidatos falharam?
O percurso clínico dos peptídeos de defesa do hospedeiro é, até hoje, uma história de resultados majoritariamente negativos ou inconclusivos. A revisão de Dijksteel e colaboradores na Frontiers in Microbiology, dedicada precisamente às lições dos ensaios clínicos com AMPs, constata que numerosos candidatos chegaram a fases avançadas de desenvolvimento sem satisfazer as exigências das agências reguladoras.
O caso mais citado é o da pexigananina (MSI-78), um análogo sintético das magaininas de rã, desenvolvido como creme para úlceras do pé diabético ligeiramente infectadas. O ensaio publicado por Lipsky, Holroyd e Zasloff na Clinical Infectious Diseases comparou, em dois estudos randomizados, controlados, duplamente cegos e multicêntricos, a aplicação tópica do peptídeo com antibioticoterapia oral. Os autores concluíram que a pexigananina tópica poderia constituir uma alternativa ao antibiótico oral nessa indicação e eventualmente reduzir a pressão seletiva. Esse resultado não foi suficiente para obter aprovação, e a molécula não chegou ao mercado.
Outros candidatos seguiram trajetórias comparáveis. O omiganan, derivado da indolicidina bovina, foi investigado em aplicações dermatológicas e na prevenção de infecções associadas a cateteres. O iseganan, derivado da protegrina de porco, foi testado em mucosite oral. Diversos análogos de catelicidinas e de defensinas permanecem em fases pré-clínicas ou em estudos iniciais. O padrão é consistente: a atividade observada em laboratório raramente se traduz em benefício clínico demonstrável.
As razões apontadas pela literatura são várias e, em grande medida, previsíveis a partir da biologia da classe. A maior parte dos ensaios dirige-se a indicações tópicas, porque a administração sistêmica expõe o risco de toxicidade. Os desenhos de não inferioridade contra antibióticos eficazes exigem amostras grandes e margens apertadas. As condições fisiológicas do local de infecção, com concentrações elevadas de sal, proteínas séricas e proteases, reduzem a atividade medida em meios de cultura. E, em feridas, a cicatrização espontânea nos grupos controle dificulta a demonstração de um efeito adicional.
Consequência prática para o leitor: à data de publicação deste artigo, e segundo as revisões citadas, nenhum peptídeo de defesa do hospedeiro está aprovado como antibiótico de uso humano. Peptídeos como a LL-37 comercializados para fins laboratoriais são produtos de pesquisa, não aprovados para uso humano, e não constituem tratamento de qualquer infecção. Uma infecção não tratada ou tratada de forma inadequada pode agravar-se rapidamente, e a sua avaliação cabe a um profissional de saúde.
Quais são as limitações: toxicidade, estabilidade e custo?
Três obstáculos estruturais explicam a distância entre o entusiasmo experimental e a realidade terapêutica dos AMPs. Eles são reconhecidos de forma convergente pelas revisões de Magana e colaboradores, de Mookherjee e colaboradores e de Dijksteel e colaboradores.
Toxicidade e seletividade limitada. O mecanismo de ação sobre membranas não é intrinsecamente específico de micróbios. Em concentrações elevadas, muitos AMPs lisam eritrócitos e lesam células eucariotas. Nos fármacos aprovados, essa realidade aparece sob a forma de efeitos adversos bem caracterizados: nefrotoxicidade e neurotoxicidade com as polimixinas, efeitos musculares com a daptomicina. Além disso, a administração sistêmica de peptídeos imunomoduladores levanta a possibilidade de interferir com respostas inflamatórias de forma indesejada.
Instabilidade farmacocinética. Um peptídeo linear natural é um substrato para as proteases do plasma e dos tecidos. A sua meia-vida é frequentemente de minutos, o que torna difícil manter concentrações ativas no local da infecção. A atividade antimicrobiana medida em meio de cultura diminui ainda em presença de concentrações fisiológicas de sódio, magnésio e cálcio, e na presença de albumina, que sequestra o peptídeo. Por via oral, a degradação digestiva é praticamente total para a maioria das sequências.
Custo e produção. A síntese química em fase sólida de peptídeos com 20 a 40 resíduos é significativamente mais onerosa do que a produção de moléculas pequenas, e o custo cresce com o comprimento da cadeia. Para uma indicação anti-infecciosa, em que o preço de referência é o de antibióticos genéricos muito baratos, esse fator pesa de forma decisiva nas decisões de desenvolvimento.
A investigação tenta responder a cada um desses pontos. As estratégias documentadas incluem a substituição por D-aminoácidos ou aminoácidos não naturais para resistir às proteases, a ciclização, a lipidação, a redução do comprimento para fragmentos ativos mínimos, o desenvolvimento de peptidomiméticos não peptídicos, o encapsulamento em nanotransportadores, a administração estritamente local e o recurso a métodos computacionais e de aprendizagem automática para desenhar sequências com melhor índice terapêutico. Nenhuma dessas abordagens produziu até agora um antibiótico peptídico sistêmico derivado de um peptídeo de defesa do hospedeiro aprovado para uso humano.
Como interpretar a informação disponível sobre os AMPs?
O campo dos peptídeos antimicrobianos combina uma base científica sólida com um mercado paralelo de produtos ditos de pesquisa, o que gera confusão frequente. Alguns critérios simples ajudam a avaliar qualquer afirmação encontrada.
Distinguir a origem da molécula. Um lipopeptídeo microbiano aprovado como medicamento, com décadas de farmacovigilância, e um peptídeo humano vendido em frasco para uso laboratorial não pertencem à mesma categoria, mesmo quando os mecanismos descritos se assemelham. A existência de antibióticos peptídicos aprovados não valida, por extensão, o uso de nenhum outro peptídeo.
Distinguir o nível de evidência. Uma atividade em placa de cultura, um resultado em modelo murino e um ensaio randomizado em seres humanos não sustentam as mesmas conclusões. A maior parte dos dados publicados sobre AMPs situa-se nos dois primeiros níveis. Quando um texto apresenta resultados obtidos in vitro como se fossem benefícios clínicos estabelecidos, há motivo para cautela.
Verificar as fontes primárias. As revisões citadas no final deste artigo estão indexadas na PubMed e são verificáveis. Uma afirmação sem referência rastreável, ou acompanhada de uma referência que não corresponde ao conteúdo invocado, não deve ser considerada.
Aviso médico. Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não contém, de forma deliberada, qualquer posologia, protocolo de administração ou recomendação de uso, e não constitui conselho médico. Os peptídeos de defesa do hospedeiro discutidos aqui não estão aprovados pela FDA, pela EMA ou pela ANVISA como medicamentos antimicrobianos de uso humano, e o seu estatuto legal varia conforme o país. Infecções bacterianas, fúngicas ou virais exigem diagnóstico e acompanhamento por um profissional de saúde qualificado, e a automedicação pode retardar um tratamento eficaz e agravar o quadro. Qualquer decisão terapêutica, incluindo o uso de antibióticos aprovados como a colistina ou a daptomicina, é da competência exclusiva de um médico.
Para aprofundar aspectos específicos, o nosso guia da LL-37 trata em detalhe a catelicidina humana, e o artigo como funcionam os peptídeos cobre as noções de base sobre estrutura, estabilidade e vias de administração.
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Perguntas frequentes
Peptídeos antimicrobianos são a mesma coisa que antibióticos?
A LL-37 está aprovada para uso humano?
As bactérias podem desenvolver resistência aos peptídeos antimicrobianos?
A colistina é um peptídeo antimicrobiano?
Por que a daptomicina não funciona contra bactérias Gram-negativas?
Existem peptídeos antimicrobianos nos alimentos?
Os AMPs atuam também contra fungos e vírus?
Por que tantos candidatos AMP falharam nos ensaios clínicos?
Fontes
- Zasloff M. (2002). Antimicrobial peptides of multicellular organisms. Nature.
- Ganz T. (2003). Defensins: antimicrobial peptides of innate immunity. Nature Reviews Immunology.
- Oppenheim FG, Xu T, McMillian FM, Levitz SM, Diamond RD, Offner GD, Troxler RF. (1988). Histatins, a novel family of histidine-rich proteins in human parotid secretion. Isolation, characterization, primary structure, and fungistatic effects on Candida albicans. Journal of Biological Chemistry.
- Vandamme D, Landuyt B, Luyten W, Schoofs L. (2012). A comprehensive summary of LL-37, the factotum human cathelicidin peptide. Cellular Immunology.
- Lazzaro BP, Zasloff M, Rolff J. (2020). Antimicrobial peptides: Application informed by evolution. Science.
- Magana M, Pushpanathan M, Santos AL, et al. (2020). The value of antimicrobial peptides in the age of resistance. The Lancet Infectious Diseases.
- Mookherjee N, Anderson MA, Haagsman HP, Davidson DJ. (2020). Antimicrobial host defence peptides: functions and clinical potential. Nature Reviews Drug Discovery.
- Dijksteel GS, Ulrich MMW, Middelkoop E, Boekema BKHL. (2021). Review: Lessons Learned From Clinical Trials Using Antimicrobial Peptides (AMPs). Frontiers in Microbiology.
- Taylor SD, Palmer M. (2016). The action mechanism of daptomycin. Bioorganic & Medicinal Chemistry.
- Lipsky BA, Holroyd KJ, Zasloff M. (2008). Topical versus systemic antimicrobial therapy for treating mildly infected diabetic foot ulcers: a randomized, controlled, double-blinded, multicenter trial of pexiganan cream. Clinical Infectious Diseases.
- GBD 2021 Antimicrobial Resistance Collaborators (Naghavi M, et al.) (2024). Global burden of bacterial antimicrobial resistance 1990-2021: a systematic analysis with forecasts to 2050. The Lancet.
- Poirel L, Jayol A, Nordmann P. (2017). Polymyxins: Antibacterial Activity, Susceptibility Testing, and Resistance Mechanisms Encoded by Plasmids or Chromosomes. Clinical Microbiology Reviews.