O que é o survodutide (BI 456906)?
O survodutide, identificado nos documentos de desenvolvimento como BI 456906, é um peptídeo sintético investigacional que ativa dois receptores ao mesmo tempo: o receptor de glucagon (GCGR) e o receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1R). Foi coinventado pela Boehringer Ingelheim em colaboração com a dinamarquesa Zealand Pharma e é administrado por via subcutânea uma vez por semana nos ensaios clínicos.
Estruturalmente, trata-se de um análogo de glucagon, e não de oxintomodulina, o que o distingue de vários outros duplos agonistas da mesma classe. A molécula tem 29 aminoácidos e carrega um diácido graxo C18 acoplado à cadeia peptídica. Essa acilação promove ligação reversível à albumina plasmática, prolonga a meia-vida e é o que torna possível a administração semanal, um princípio de engenharia molecular descrito na publicação de caracterização pré-clínica do composto em Molecular Metabolism.
O programa clínico do survodutide se desenvolveu em três frentes paralelas: obesidade e sobrepeso em pessoas sem diabetes, obesidade em pessoas com diabetes tipo 2, e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, incluindo a esteato-hepatite (MASH) com fibrose. Essa amplitude não é acidental: ela reflete a hipótese farmacológica de que o componente glucagon acrescenta efeitos hepáticos e metabólicos que um agonista GLP-1 isolado não produz.
| Identidade | Dado |
|---|---|
| Código de desenvolvimento | BI 456906 |
| Classe farmacológica | Agonista duplo GCGR / GLP-1R |
| Origem estrutural | Análogo de glucagon, 29 aminoácidos |
| Prolongamento de meia-vida | Diácido graxo C18, ligação à albumina |
| Via e frequência nos ensaios | Subcutânea, semanal |
| Desenvolvedores | Boehringer Ingelheim e Zealand Pharma |
| Status em outubro de 2026 | Investigacional, fase 3, sem aprovação |
Vale fixar desde já o ponto mais importante deste guia: o survodutide não é um medicamento aprovado. Todos os dados discutidos aqui vêm de ensaios clínicos conduzidos sob supervisão regulatória, com participantes selecionados, monitoramento próximo e esquemas de escalada de dose definidos em protocolo. Este texto é educativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Para situar o survodutide no panorama mais amplo dessa classe, vale consultar nosso guia sobre as incretinas de nova geração.
Como funciona um duplo agonista glucagon/GLP-1?
A lógica do duplo agonismo é somar dois mecanismos complementares de regulação do balanço energético. O braço GLP-1 é o mais conhecido: ativação do GLP-1R no sistema nervoso central reduz o apetite e aumenta a saciedade, retarda o esvaziamento gástrico e potencia a secreção de insulina de forma dependente da glicose. É o mecanismo pelo qual atuam a semaglutida e, parcialmente, a tirzepatida.
O braço glucagon é o que diferencia o survodutide. O glucagon, historicamente visto apenas como hormônio hiperglicemiante, também aumenta o gasto energético, estimula a lipólise e favorece a oxidação de lipídios no fígado. Em modelos pré-clínicos, o BI 456906 demonstrou engajamento dos dois receptores e perda de peso superior à esperada pelo componente GLP-1 isolado, com evidência de aumento do gasto energético além da redução da ingestão alimentar. Um trabalho posterior em camundongos sugeriu que o GCGR hepático é necessário para esses efeitos metabólicos adicionais.
O risco teórico do agonismo GCGR é a elevação da glicemia. Na prática, o componente GLP-1 do survodutide contrabalança esse efeito: nos ensaios em diabetes tipo 2, a hemoglobina glicada caiu de forma dose-dependente em vez de subir. O equilíbrio entre as duas potências relativas dentro de uma mesma molécula é, portanto, uma decisão de desenho farmacológico, e não um detalhe menor.
Há um sinal interessante sobre o fígado. Uma análise de mediação publicada em Hepatology em 2026, baseada no ensaio de fase 2 em MASH, estimou que a redução de peso explicava cerca de 71,8 % do efeito total do tratamento sobre a melhora da MASH sem agravamento da fibrose, mas apenas 36,3 % do efeito sobre a melhora da fibrose sem agravamento da MASH. As medidas de esteatose por imagem foram majoritariamente dependentes do peso, enquanto marcadores de inflamação e fibrose o foram menos. Isso é compatível com um efeito hepático parcialmente independente da perda de peso, plausivelmente atribuível ao agonismo do receptor de glucagon, embora análises de mediação sejam exploratórias por natureza e não provem causalidade mecanística.
Em resumo: o survodutide foi projetado para reduzir o peso por dois caminhos (menos ingestão e mais gasto energético) e para agir sobre o fígado por vias que não se reduzem inteiramente à perda ponderal. Essa é a hipótese; as seções seguintes examinam até que ponto os dados clínicos a sustentam.
O que mostraram os ensaios de fase 2 na obesidade e no diabetes tipo 2?
O ensaio de fase 2 em obesidade foi publicado em março de 2024 em The Lancet Diabetes & Endocrinology por le Roux e colaboradores. Foi um estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, de busca de dose, com 387 participantes com sobrepeso ou obesidade e sem diabetes, tratados por 46 semanas com survodutide subcutâneo semanal em quatro níveis de dose (0,6 mg, 2,4 mg, 3,6 mg e 4,8 mg) ou placebo.
Os resultados foram dose-dependentes. Com a dose mais alta testada, a redução média de peso corporal foi de 14,9 % contra 2,8 % com placebo na análise de 46 semanas. Entre os participantes que completaram a fase de manutenção nessa dose, a redução média alcançou 18,7 %. Nesse mesmo grupo, 83 %, 69 % e 55 % dos participantes atingiram perdas de pelo menos 5 %, 10 % e 15 % do peso inicial, respectivamente. Benefícios metabólicos concomitantes foram observados, incluindo melhora de parâmetros de pressão arterial e de perfil lipídico relatados na publicação.
Paralelamente, um ensaio de fase 2 em diabetes tipo 2 foi publicado em Diabetologia (Blüher e colaboradores, 2024). Participantes tratados com metformina foram randomizados para survodutide em várias doses (0,3 a 2,7 mg por semana, ou 1,2 a 1,8 mg a cada duas semanas), placebo ou semaglutida 1,0 mg em braço aberto, por 16 semanas. A redução de hemoglobina glicada foi dose-dependente e chegou a até 1,6 ponto percentual (17 mmol/mol). As doses mais baixas produziram queda de HbA1c comparável à da semaglutida, enquanto as doses mais altas produziram maior redução de peso. Os autores concluíram que os efeitos gastrointestinais relacionados à dose podiam ser atenuados com esquemas de escalada mais lentos, uma observação que moldou diretamente o desenho da fase 3.
Dois limites devem ser lembrados ao ler esses números. Primeiro, ensaios de fase 2 têm como objetivo principal identificar doses e estimar sinais de eficácia, não estabelecer o efeito definitivo: as amostras são relativamente pequenas e os intervalos de confiança, amplos. Segundo, o braço de semaglutida no ensaio em diabetes era aberto e usava a dose de 1,0 mg indicada para diabetes, e não a dose de 2,4 mg estudada em obesidade, de modo que ele não autoriza conclusões sobre eficácia relativa no manejo do peso.
Quais foram os resultados da fase 2 na MASH?
O ensaio de fase 2 em esteato-hepatite associada à disfunção metabólica foi publicado no New England Journal of Medicine em julho de 2024 por Sanyal e colaboradores, após apresentação no congresso da EASL. Incluiu 293 adultos com MASH confirmada por biópsia hepática e fibrose em estágios F1 a F3, randomizados para survodutide 2,4 mg, 4,8 mg ou 6,0 mg, ou placebo, por 48 semanas, divididas em 24 semanas de escalada rápida de dose e 24 semanas de manutenção.
O desfecho primário foi a melhora histológica da MASH sem agravamento da fibrose. Ele ocorreu em 47 % do grupo de 2,4 mg, 62 % do grupo de 4,8 mg, 57 % do grupo de 6,0 mg e 14 % do grupo placebo. A superioridade em relação ao placebo foi estatisticamente significativa e notável pela magnitude, em uma área terapêutica na qual muitos candidatos falharam.
Desfechos secundários relativos à fibrose também foram avaliados. Segundo os dados apresentados pelo promotor na EASL 2024, entre participantes com fibrose F2 ou F3 a melhora da fibrose sem agravamento da MASH chegou a 64,5 % contra 25,9 % com placebo. Esses números vêm de análises de subgrupo em um ensaio de fase 2, com amostras pequenas por estrato, e devem ser lidos como geradores de hipótese e não como prova de benefício antifibrótico.
Foi essa combinação de resultados que sustentou as designações regulatórias aceleradas. Em outubro de 2024, a FDA concedeu ao survodutide a designação de Breakthrough Therapy para adultos com MASH não cirrótica e fibrose moderada ou avançada (estágios 2 ou 3). Importante: uma designação desse tipo acelera o diálogo regulatório e a revisão, mas não é uma aprovação e não atesta eficácia estabelecida.
Resta a questão central da hepatologia moderna: melhorar a histologia em 48 semanas prediz menos cirrose, menos descompensação hepática e menos mortalidade a longo prazo? Só ensaios de desfechos clínicos com anos de seguimento podem responder, e é exactamente isso que o programa de fase 3 hepático foi desenhado para testar.
O que já se sabe do programa de fase 3 SYNCHRONIZE?
O programa de fase 3 em obesidade recebeu o nome SYNCHRONIZE e tem dois ensaios pivotais principais, ambos de 76 semanas, duplo-cegos e controlados por placebo, com doses de survodutide tituladas até 3,6 mg ou 6,0 mg por semana.
SYNCHRONIZE-1 (NCT06066515) incluiu 725 adultos com IMC de 30 kg/m² ou mais, ou de 27 kg/m² ou mais com ao menos uma complicação relacionada ao peso, excluindo diabetes tipo 2 (241 no grupo de 3,6 mg, 242 no de 6,0 mg e 242 no placebo). Na publicação do New England Journal of Medicine em 2026, a variação média de peso na semana 76 foi de 12,2 % no grupo de 3,6 mg, 13,0 % no de 6,0 mg e 5,4 % no placebo. Perda de pelo menos 5 % do peso ocorreu em 72,6 %, 71,9 % e 46,3 % dos participantes, respectivamente.
SYNCHRONIZE-2 (NCT06066528) incluiu 752 adultos com diabetes tipo 2 e IMC de 27 kg/m² ou mais. Na semana 76, a variação média de peso foi de 8,2 % com 3,6 mg, 9,8 % com 6,0 mg e 3,9 % com placebo, com perda de pelo menos 5 % em 57,6 %, 64,5 % e 35,1 % dos participantes. A hemoglobina glicada, partindo de um valor basal médio de 7,4 %, caiu 0,9 ponto percentual com 3,6 mg, 0,8 ponto com 6,0 mg e 0,2 ponto com placebo. A perda de peso menor nesse ensaio é um padrão já conhecido: pessoas com diabetes tipo 2 respondem menos aos agentes incretínicos do que pessoas sem diabetes.
Aqui surge uma fonte frequente de confusão. Os comunicados do promotor relataram perda de peso de até 16,6 % contra 3,2 % no SYNCHRONIZE-1 e de até 13,1 % contra 3,1 % no SYNCHRONIZE-2. Esses valores vêm do chamado estimando de eficácia, que estima o efeito em participantes que permaneceram aderentes ao tratamento, enquanto os números publicados acima correspondem ao estimando de regime de tratamento, que inclui todos os randomizados independentemente de interrupções. Os dois conjuntos de números são válidos e respondem a perguntas diferentes: um descreve o efeito farmacológico sob uso contínuo, o outro o resultado esperado na prática, com descontinuações incluídas. Citar apenas o maior deles sem explicar o estimando é enganoso.
O programa inclui ainda o SYNCHRONIZE-CVOT (NCT06077864), um ensaio de segurança cardiovascular orientado por eventos, com meta de recrutamento em torno de 4 935 participantes com IMC de 27 kg/m² ou mais e doença cardiovascular estabelecida, doença renal crônica ou múltiplos fatores de risco. O objetivo primário é testar não inferioridade do survodutide frente ao placebo para um desfecho composto de eventos cardiovasculares adversos maiores de cinco componentes. Há também ensaios dedicados a populações específicas, entre eles um estudo de fase 3 em adultos chineses (SYNCHRONIZE-CN). Até outubro de 2026, os resultados do CVOT não foram divulgados.
O que o SYNCHRONIZE-MASLD acrescentou aos dados hepáticos?
O SYNCHRONIZE-MASLD (NCT06309992) foi o primeiro ensaio de fase 3 do survodutide com desfecho hepático a ser publicado. Trata-se de um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado em Nature Medicine em 2026 e apresentado nas Sessões Científicas da ADA em junho de 2026. Participantes com obesidade e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica foram randomizados em proporção 2:1 para survodutide 6,0 mg semanal (n = 146) ou placebo (n = 70), por 48 semanas.
Os dois desfechos coprimários foram atingidos. A proporção de participantes com redução de pelo menos 30 % no conteúdo de gordura hepática medido por ressonância magnética (MRI-PDFF) foi de 84,2 % com survodutide contra 24,3 % com placebo. A variação média de peso corporal foi de 12,2 % contra 1,0 %. Em termos de magnitude, a redução relativa média da gordura hepática foi de 58,7 % contra 9,5 %, e a normalização do conteúdo de gordura hepática, definida como valor abaixo de 5 %, foi observada em 61,0 % contra 5,7 % dos participantes.
Esses limiares têm significado clínico reconhecido na literatura hepatológica: reduções de cerca de 30 % da gordura hepática associam-se à melhora da atividade da MASH e reduções próximas de 50 % associam-se à melhora do estágio de fibrose. Ainda assim, gordura hepática medida por imagem é um marcador substituto. Ela não é equivalente a resolução histológica da esteato-hepatite nem a prevenção de cirrose.
O promotor também apresentou em 2026 análises de composição corporal provenientes do programa de fase 3, descrevendo redução importante de gordura visceral e de gordura hepática com preservação relativa da massa magra. São análises secundárias comunicadas em congresso e por comunicado de imprensa, e por isso merecem leitura mais cautelosa do que os desfechos primários revisados por pares.
A pergunta clínica decisiva continua em aberto e está sendo testada em dois ensaios de desfechos, o LIVERAGE (NCT06632444), em adultos com MASH e fibrose moderada ou avançada, e o LIVERAGE-Cirrhosis (NCT06632457), em adultos com cirrose compensada. Ambos avaliam risco de desfechos de doença hepática terminal ao longo de vários anos, com conclusão prevista para o início da próxima década. Até que esses resultados existam, o benefício hepático de longo prazo do survodutide permanece não demonstrado.
Quais efeitos indesejáveis foram relatados?
O perfil de tolerabilidade do survodutide é dominado por eventos adversos gastrointestinais, como em toda a classe incretínica, mas com frequência elevada nos ensaios de fase 3. No SYNCHRONIZE-1, eventos gastrointestinais ocorreram em 80,9 % dos participantes do grupo de 3,6 mg, 89,7 % do grupo de 6,0 mg e 47,9 % do grupo placebo. No SYNCHRONIZE-2, as taxas foram de 72,8 % e 77,7 % nos grupos de survodutide. Os quadros mais relatados foram náusea, vômito, diarreia e constipação, em geral de intensidade leve a moderada, transitórios e concentrados no período de escalada de dose.
A consequência prática dessa frequência é a descontinuação. Segundo os dados comunicados sobre o SYNCHRONIZE-1, cerca de 19 % dos participantes tratados interromperam o tratamento por eventos adversos gastrointestinais, contra 2,9 % no placebo. Nenhum óbito foi relatado nesse ensaio. Essa taxa de interrupção é mais alta do que a observada historicamente com agonistas GLP-1 isolados e ajuda a explicar por que os números de perda de peso diferem tanto entre os dois estimandos discutidos na seção anterior: parte do efeito farmacológico não se traduz em resultado populacional porque uma fração dos participantes não tolera o tratamento até o fim.
Os ensaios de fase 2 já indicavam que esses eventos eram dose-dependentes e que esquemas de escalada mais lentos os atenuavam, o que levou à adoção de titulação mais gradual na fase 3. Vale notar que, nos ensaios, a escalada foi conduzida por protocolo, com supervisão médica e critérios definidos de ajuste e interrupção. Nenhum dos dados aqui descritos autoriza a reprodução de esquemas de dose fora desse contexto.
Outras considerações de segurança da classe permanecem sob vigilância e não podem ser consideradas resolvidas para o survodutide: alterações de frequência cardíaca, eventos biliares e pancreáticos, perda de massa magra durante a redução rápida de peso, e segurança cardiovascular a longo prazo, que é precisamente o objeto do SYNCHRONIZE-CVOT. Para uma visão geral dos efeitos adversos típicos dessa família de moléculas, veja nosso artigo sobre os efeitos secundários dos agonistas GLP-1.
Aviso importante: as informações desta seção descrevem o que foi observado em ensaios clínicos registrados. Elas não constituem orientação de uso, não indicam dose e não substituem avaliação médica individual. Qualquer decisão terapêutica deve ser tomada com um profissional de saúde habilitado.
Como o survodutide se compara ao retatrutide, à tirzepatida e à semaglutida?
A tabela abaixo reúne os resultados de perda de peso dos ensaios de referência de cada molécula. Ela serve para situar ordens de magnitude, e não para hierarquizar eficácia: as populações, as durações, os esquemas de titulação e os métodos estatísticos diferem entre os estudos, e não existe nenhum ensaio comparativo direto entre o survodutide e qualquer um dos outros três.
| Molécula | Receptores | Ensaio de referência | Duração | Variação média de peso |
|---|---|---|---|---|
| Survodutide 6,0 mg | GCGR + GLP-1R | SYNCHRONIZE-1 (fase 3) | 76 semanas | 13,0 % contra 5,4 % com placebo |
| Semaglutida 2,4 mg | GLP-1R | STEP 1 (fase 3) | 68 semanas | 14,9 % contra 2,4 % com placebo |
| Tirzepatida 15 mg | GIP + GLP-1R | SURMOUNT-1 (fase 3) | 72 semanas | 20,9 % contra 3,1 % com placebo |
| Retatrutide 12 mg | GIP + GLP-1R + GCGR | Ensaio de fase 2 | 48 semanas | 24,2 % (fase 2, não pivotal) |
Três observações ajudam a interpretar essa tabela. Primeiro, o braço placebo do SYNCHRONIZE-1 perdeu 5,4 % do peso, bem mais do que os 2,4 % do STEP 1 ou os 3,1 % do SURMOUNT-1, o que comprime a diferença absoluta atribuível ao survodutide nesse ensaio e sugere diferenças de intervenção de estilo de vida e de contexto entre os estudos. Segundo, o número do retatrutide vem de um ensaio de fase 2, não de um pivotal, e números de fase 2 tendem a ser mais altos do que os de fase 3 na mesma classe, como o próprio survodutide ilustra (14,9 % na fase 2 contra 13,0 % na fase 3). Terceiro, os valores publicados do survodutide usam o estimando de regime de tratamento; sob o estimando de eficácia, o promotor comunicou até 16,6 %.
Do ponto de vista mecanístico, o posicionamento é mais informativo do que a classificação numérica. A semaglutida atua por uma única via incretínica. A tirzepatida adiciona o receptor de GIP. O retatrutide combina as três vias, GIP, GLP-1 e glucagon. O survodutide é a abordagem mais enxuta entre as que incorporam o glucagon: duas vias apenas, com ênfase declarada no gasto energético e no efeito hepático.
É nesse eixo hepático que o survodutide pode acabar se diferenciando mais do que no eixo da balança. A combinação de resultados histológicos de fase 2 em MASH, de redução expressiva de gordura hepática na fase 3 e de um sinal de efeito parcialmente independente do peso na análise de mediação constrói um caso específico que não depende de superar a tirzepatida ou o retatrutide na perda de peso. Mas trata-se, por enquanto, de um caso em construção, e não de uma conclusão estabelecida.
Qual é o status regulatório e o que ainda falta saber?
Em outubro de 2026, o survodutide não está aprovado por nenhuma agência reguladora, incluindo a FDA nos Estados Unidos, a EMA na Europa e a Anvisa no Brasil. Ele continua classificado como composto investigacional, disponível exclusivamente no âmbito de ensaios clínicos autorizados.
Duas designações aceleradas foram concedidas no eixo hepático. A FDA outorgou designação de Fast Track e, em outubro de 2024, de Breakthrough Therapy para adultos com MASH não cirrótica e fibrose de estágio 2 ou 3. A EMA concedeu acesso ao esquema PRIME (Priority Medicines) para MASH com fibrose. Essas designações significam diálogo regulatório mais intenso e potencial revisão acelerada, e nada mais: nenhuma delas atesta eficácia comprovada nem antecipa decisão de aprovação. O cronograma de submissão de pedidos de registro não foi detalhado publicamente.
As lacunas de conhecimento são claras e importantes. A segurança cardiovascular de longo prazo depende do SYNCHRONIZE-CVOT, cujos resultados não estão disponíveis. O benefício hepático clinicamente relevante depende dos ensaios LIVERAGE e LIVERAGE-Cirrhosis, com conclusão prevista para o início da próxima década. A durabilidade da perda de peso após a interrupção, a evolução da composição corporal ao longo de anos e o desempenho em populações pouco representadas nos ensaios pivotais permanecem em grande parte desconhecidos.
Um alerta prático se impõe. Peptídeos rotulados como survodutide circulam em canais de venda que se apresentam como fornecedores de insumos para pesquisa. Esses produtos não são medicamentos, não têm garantia de identidade, pureza, esterilidade ou estabilidade, não passam por controle farmacêutico e não têm equivalência demonstrada com a substância usada nos ensaios clínicos. Não indicamos fornecedores, não publicamos preços e não fornecemos qualquer orientação de dose ou protocolo para o survodutide.
Aviso médico: este guia tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. O survodutide é uma substância investigacional não aprovada para uso humano fora de ensaios clínicos, e seu status legal varia conforme a jurisdição. Nada aqui constitui conselho médico, diagnóstico, prescrição ou recomendação de uso. Dados pré-clínicos, de fase 2 e de fase 3 descrevem contextos de evidência distintos e não devem ser lidos de forma equivalente. Se você convive com obesidade, diabetes tipo 2 ou doença hepática metabólica, converse com um profissional de saúde sobre as opções aprovadas e adequadas ao seu caso.
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Perguntas frequentes
O survodutide está aprovado para tratamento da obesidade?
Qual é a diferença entre o survodutide e a semaglutida?
Quanta perda de peso foi observada nos ensaios de fase 3?
Por que alguns textos citam 16,6 % de perda de peso e outros 13,0 %?
O survodutide funciona para doença hepática metabólica?
Quais são os efeitos indesejáveis mais frequentes relatados nos ensaios?
O survodutide é mais eficaz que o retatrutide?
É possível comprar survodutide legalmente?
Fontes
- le Roux CW, Steen O, Lucas KJ, et al. (2024). Glucagon and GLP-1 receptor dual agonist survodutide for obesity: a randomised, double-blind, placebo-controlled, dose-finding phase 2 trial. The Lancet Diabetes & Endocrinology.
- le Roux CW, et al. (2026). Survodutide Once Weekly for the Treatment of Adults with Obesity (SYNCHRONIZE-1). New England Journal of Medicine.
- SYNCHRONIZE-2 Trial Investigators (2026). Survodutide Once Weekly in Adults with Obesity and Type 2 Diabetes. New England Journal of Medicine.
- Sanyal AJ, Bedossa P, Fraessdorf M, et al. (2024). A Phase 2 Randomized Trial of Survodutide in MASH and Fibrosis. New England Journal of Medicine.
- SYNCHRONIZE-MASLD Trial Investigators (2026). Survodutide in adults with obesity and metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: SYNCHRONIZE-MASLD, a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial. Nature Medicine.
- Blüher M, Rosenstock J, Hoefler J, et al. (2024). Dose-response effects on HbA1c and bodyweight reduction of survodutide, a dual glucagon/GLP-1 receptor agonist, compared with placebo and open-label semaglutide in people with type 2 diabetes: a randomised clinical trial. Diabetologia.
- Survodutide phase 2 MASH trial investigators (2026). Weight reduction-dependent/-independent effects of survodutide on liver endpoints: Mediation analysis of a phase 2 trial in MASH. Hepatology.
- Zimmermann T, Thomas L, et al. (2022). BI 456906: Discovery and preclinical pharmacology of a novel GCGR/GLP-1R dual agonist with robust anti-obesity efficacy. Molecular Metabolism.
- SYNCHRONIZE-CVOT investigators (2024). Survodutide for the Treatment of Obesity: Rationale and Design of the SYNCHRONIZE Cardiovascular Outcomes Trial. JACC: Heart Failure.
- Boehringer Ingelheim (2024). U.S. FDA grants Breakthrough Therapy designation for survodutide in MASH. Comunicado institucional.
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. (2022). Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine.
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. (2021). Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine.
- Jastreboff AM, Kaplan LM, Frías JP, et al. (2023). Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity: A Phase 2 Trial. New England Journal of Medicine.